O significado do dedo polegar, com o resto da mão meio-fechada, é do conhecimento universal, principalmente dos automobilistas.

Nos meus tempos de estudante, dadas as inúmeras necessidades económicas, tive de me fazer à estrada e pedir boleia durante muito tempo. Era uma aventura para mim e aliviava a parca bolsa dos meus pais.
A primeira pessoa que me inspirou nestes itinerários rodoviários foi o Missionário João Czepanski, que sofreu as agruras da Segunda Guerra Mundial, Reitor da Escola Apostólica de Cristo Rei, quando em 1958, vestido de sotaina e munido de uma máquina de escrever e uma pasta preta, ia para a Estrada da Beira, que conduzia a novas oportunidades para os seus pupilos e contactos com benfeitores.
Na década de sessenta o meu pai vai para Setúbal, a quem se junta o meu irmão Manuel José Fernandes, que se encontrava em Lisboa. Numa conversa, nas férias da Páscoa, na minha aldeia natal – Bismula –, com o Francisco dos Santos Vaz, aluno no Seminário da Guarda, já com alguma experiência nas aventuras do asfalto, o repto foi lançado: nas próximas férias de Verão iríamos, de boleia, da Guarda até Setúbal, onde estaríamos uns dias com o meu pai e irmão. O meu pai desempenhava lá as funções de sacristão e sempre dávamos uma ajuda nas liturgias diárias.
Manhã cedo já estavamos estrategicamente à saída da cidade dos três efes. Os automóveis eram raros, mas os condutores eram generosos. O primeiro condutor, com um Citroen 2CV, leva-nos até perto de Celorico da Beira. Ainda apanhámos um grande susto, mas ficou no susto. Junto a nós vi uma vinha com saborosos cachos de uvas. Como era o mais novato, decidi temerário colher os frutos de Baco. De repente, senti um travar de trovoada e o Francisco Vaz a gritar para correr. Claro que lá foram as uvas… Um casal de turistas franceses estava disposto a levar-nos até Lisboa. Foi genial. A primeira paragem foi na cidade de Coimbra. Fizemos uma visita cultural com um cicerone fora do comum: o meu conterrâneo, que falava diversas línguas e com grandes conhecimentos históricos. Tínhamos conquistado a simpatia daquele casal francês. Seguiu-se Alcobaça onde almoçámos. Passámos à Nazaré, adorada por marido e esposa. Antes de chegar a Lisboa ainda passámos por Fátima. No final da viagem recebemos um dólar cada, além de termos almoçado muito bem e chegado ao nosso destino. Foi uma retribuição justíssima pelas aulas de história, geografia, arte e cultura na língua materna do casal.
Assim levei a vacina das boleias, que ainda hoje me corre no sangue, cultivando religiosamente o polegar na linha do horizonte.
A segunda viagem empreendida «a dedo» foi o trajeto invertido da primeira, ou seja, de Lisboa para a Guarda, esticando-se a estrada até Vilar Formoso, à casa paroquial desse homem e padre que nos marcou profundamente de nome Padre Ezequiel Augusto Marcos, que ainda hoje se encontra naquelas terras, onde sempre tivemos toda a sua hospitalidade e acolhimento. Nesta peregrinação calhou-nos um condutor dinamarquês, com um ódio de estimação ao Estado Novo. Várias vezes nos incitou a emigrar para o seu País, pois em Vilar Formoso não havia problemas para ultrapassar a fronteira.
Outra viagem teve saída de Setúbal e, embora muito apertados, chegámos a Santarém. Aí, vistas as dificuldades, só conseguimos entrar numa carrinha de caixa fechada, carregada com sacas de farinha. Saímos em Torres Novas mais parecidos com uns moleiros, todos cheios de farinha, pois, com a trepidação da carrinha, essa estacionava nas nossas roupas. Apesar da roupagem branca, foi o dia negro das nossas viagens. Chegámos ao anoitecer ao Gavião. Ainda não se encontrava lá o José Augusto Vaz, Irmão de Francisco Vaz e em Abrantes a minha prima freira Lurdes Alves Ramos, enfermeira na maternidade do Hospital daquela cidade. Ali chegados sem dinheiro e sem o farnel, já há muito se tinha esgotado, uma desgraça nunca vem só, dirigimo-nos ao Seminário Menor da Diocese de Portalegre. Recebe-nos um padre que não nos dá guarida, ainda insinua que podemos ser malfeitores. Lembrei-me da Parábola do Samaritano. E eis que surgiu uma Samaritana, uma mulher idosa que também tinha um filho que andava por esse país de boleia, dando-nos ceia, dormida e no dia seguinte o pequeno-almoço. Ainda há gente boa para quem a caridade não é só palavreado. Seguimos diretamente para Castelo Branco. Aí, da parte da tarde, um condutor, acompanhado pela sua filha, dá-nos boleia até à Guarda. A filha deve ter pedido para nos transportar. Era boa de sentimentos e linda como uma flor. O seu progenitor entrou em discussão connosco e estava na expetativa de nos pôr fora do automóvel. Quando passávamos por Alpedrinha, já na Serra da Gardunha, surgiu uma tremenda trovoada. Eu estava com medo que ele nos convidasse a sair para um passeio campestre na Gardunha… Já não nos chegava os trovões das suas palavras. Lá chegámos à Guarda…
Noutras férias da Páscoa saí de Gouveia com destino a Setúbal, onde tinha todos os meus familiares. Até Coimbra tudo correu bem. À saída daquela cidade, depois de longo tempo de espera, fui de carroça até Condeixa-a-Nova. Andei doze quilómetros num veículo de tração animal. Essa viagem também não correu bem e tive de apanhar o comboio nas Caldas da Rainha para Lisboa, via Oeste, onde cheguei tarde e a más horas. Sem dinheiro valeu-me a minha tia Amélia Alves Lavajo que residia na Ajuda.
Muitas dezenas de viagens se seguiram. Apontei estas que mais me marcaram. Recebi muitas boleias e ainda corro o risco de as dar, partilhando o meu automóvel para ouvir novas histórias e vidas. Gosto desta forma de contato, de falar com as pessoas, de escutar o coração humano pela longa estrada. Há dias transportei de Castelo Branco um estudante canadiano que andava a dar volta pela velha Europa, como afirmou. Dizia-me que não era crente, que não acreditava em religiões. Á despedida, no Fundão ofereceu-me uma pequenina imagem de Jesus Cristo. Fiquei sem palavras…
Hoje a oferta e a procura passa por novos métodos, por novas tecnologias, por outas vias de comunicação, pela internet, onde se «desenrascam» boleias para o fim do mundo. É uma proximidade mais cómoda, embora eu prefira o risco da boleia de estrada. Por oposição ao polegar (qual imperador romano!) que agora só assinala um «gosto» no facebook, vou recordar sempre o polegar da sobrevivência, sinal «fixe» de camaradagem entre os homens.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

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