Têm sido risonhas as madrugadas e soalheiras as manhãs. As tardes, velozes e secas, têm cruzado um ano fazedor de história em matéria de falta de chuva. Os serviços meteorológicos têm insistido na necessidade de recuar, profundamente, no tempo e na história das medições para nos garantir que, um ano assim, só há mais de oitenta anos.

Primavera Seca

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»A meteorologia estuda, evidentemente, a orientação do vento, a qualidade do ar, a força e a frequência de eventuais tempestades. Compara a escassez de humidade com chuvas diluvianas e conclui que, neste ano, é quase certa a continuação da seca.
Uma sondagem recentemente divulgada confirma que mais de trinta por cento das conversas têm começado pelo assunto do tempo. Eis, portanto, a prova de que a seca tem sido motivo de aflição tal como têm sido aflitivas outras adversidades (porventura económicas).
Os velhos do interior raiano, esses eternos e verdadeiros conhecedores do tempo, observam exaustivamente as centenas de sinais que indicam no horizonte a eventual presença ou ausência de chuva. Consideram tais indícios pequenos tesouros, pormenores de luxo, que constituem base de referência para as suas previsões. Têm concluído que a seca vai continuar.
Pouco antes da minha quase diária volta do fim de tarde, ofereceu-se-me um horizonte dilatado pelas alturas. Também eu me baseio no que tenho bebido da sabedoria popular, decalcada de deliciosas histórias e de algumas vivências de infância em manhãs e tardes que, ora passadas, se me representam na memória. Também eu tento interpretar sinais, ler futuros de chuvas, saber dos calores ou dos frescos, analisar húmidos detalhes. Também eu tento tornar útil o meu conhecimento. Concluo (verdade provada) que este é um ano mau, até no tempo!
Ora, se as preocupações já sobejavam, junta-se-lhes, então, um tempo de amarga secura.
Hoje, tarde de terça, dia de março quente com o dialho no ventre, olho o horizonte e só as palavras simples me motivam. A simplicidade ajuda, claro, seja qual for a matéria, seja qual for o tema, seja qual for a luta.
Constato, portanto, a realidade da vida e (re)olhando o horizonte, ausente de chuva e prematuramente primaveril, reconheço a dureza da seca e a dureza da vida, tantas vezes um quase prematuro inferno!
Mas não, nem tudo pode ser mau. A Primavera está no seu início. Por coincidência (feliz) cruzou-se, recentemente, com o dia nacional da poesia , 21 de março. Ora, a poesia é síntese do real e pode ser síntese do tempo. Limpa a realidade de pequenez e de imbecilidade. Não será, portanto, de admirar que a poesia melhore o tempo. A sua força é imensurável! Florbela Espanca esclarece que a poesia faz os homens maiores do que os homens.
Então que o ar poético da Primavera, ainda que sem chuva e sem muitas nem difíceis palavras (essas poderão soar-me a lugar comum) seja uma espécie de cura. Que nos tranquilize. Que nos componha um pouco a vida.
Valha-nos, ao menos, o ar poético primaveril.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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