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Hoje vou ser «desagradável» para algumas pessoas. Escrever o que se pensa é isso também, por vezes. Vou acrescentar neste texto mais um «item» a uma tese que defendo. E cai na «mouche» por causa de duas peças publicadas recentemente no «Capeia», numa das quais se falava do «ethos» raiano.

Mapa do concelho do Sabugal

José Carlos MendesO concelho do Sabugal é de uma grande diversidade de gentes. Confirmo todos os dias uma coisa interessante: o Casteleiro não pertence à Raia; nós, na minha terra, não somos arraianos. Os nossos «ethos» (maneiras de ser, de falar, de reagir, os nossos costumes) são muito diferentes. Parece que construímos castros e castelos em tempos que já lá vão, mas não andámos nas guerras de fronteira, a não ser nas décadas de 60 e 70 – mas para ir de abalada a salto para a França.
Não somos raianos.
Mais.
Tenho para mim há muito tempo que, pela lógica, a minha terra devia estar no concelho de Belmonte ou noutro, mas do distrito de Castelo Branco, como sempre esteve até meados do século XIX. Já o escrevi em muitas ocasiões.
Há muitas diferenças e muitos pendores nossos que não batem certo com os dos povos raianos. É assim.

«Ethos» muito diferentes
As nossas maneiras de ser são muito diferentes das que encontramos nas terras da Raia.
Costumes, filosofias de vida, maneiras de ser – tudo muito diferente. E até a maneira de falar: o entoado, a pronúncia de muitas palavras, o ritmo «do falar», as expressões e até muitas palavras.
Somos diferentes. Amigos, mas diferentes. No Casteleiro há bastante sangue arraiano: casamentos fizeram a mistura. E dá para ver a harmonia na diferença.
Ora, uma das componentes da / do «ethos» é o linguajar profundo do Povo de uma terra ou de uma região, pois esse linguajar traduz em muitos casos uma filosofia de vida.
Ora quando leio artigos em que esse linguajar é protagonista, como é o caso dos magníficos capítulos da série «Aventuras de um velho contrabandista», mais me convenço de quanto somos diferentes.
Mas já lá vou, depois de dois compassos de «intermezzo»:
1. Antes disso e para já, quero assinalar outra diferença: as touradas, sejam de forcão, sejam de capa e espada, sejam de cavalos. Mas sobretudo as pegas e as garraiadas, com ou sem forcão. Cá para estes lados, nada de devoções marcadas desse tipo.
2. E também antes de ir às palavras usadas nesses textos e que não usamos no Casteleiro, quero registar com o leitor algumas expressões usadas no Casteleiro que julgo que na Raia não serão conhecidas,
Só depois disso irei referir algumas palavras que não entendo nos artigos sobre o velho contrabandista…

Expressões interessantes
Apenas três ou quatro exemplos. Não sei se em mais algum ponto do País se dirão vocábulos como:
Ter uma coisa em grande incondezilha. Nem imaginam o que isso significa, não é? Mas eu explico. Significa: dar muito valor a uma coisa. Apenas isso.
Fulana é uma grande linguerta ou é uma grande lindrisca. Quer dizer que a pessoa mete o nariz em tudo. Mas há diferença de grau: a lindrisca anda de má fé.
Ou então: – Aquilo é um pantchana. Para significar: é um atado, não é nada desenrascado.
Ou ainda: – É um bom mucanca. Significado: costuma andar trombudo, não fala às pessoas.
Se eu não explicasse estas expressões, percebiam-nas?
… Mas não posso deixar de registar, a propósito da boa disposição que julgo, e muitos julgamos, enforma o espírito popular profundo no Casteleiro. É o caso de alguém que diz com grande alarde para outrem
Mostra aí às p… (prostitutas – mas à moda da rua, bem profunda) quem são os coirões!
Atenção, isto era dito aos rapazes.
Ora «coirão», no Casteleiro e não só, não é mais do que uma forma suave para «prostituta». Então, se alguém é incitado a mostrar às prostitutas quem são as prostitutas, isso significa: «Mostra lá o que vales». Apenas isso, mas dito com um grande sorriso de humor (muito específico, claro).

Palavras que desconheço
Apenas alguns exemplos. Porque não sou da região de cima do Côa, não percebo palavras como: «almareado», logo no título da última crónica, ou «béculas» ou «cachondice» que leio também no último texto sobre o Contrabandista. Adoro ler aquilo tudo, pelo ambiente criado, pelo realismo do encadear da trama, mas tratando-se de episódios soltos – como quem recorda para os netos bocados da sua vida passada.
Gosto e leio. Mas a verdade é que desde o primeiro capítulo venho notando a minha distância em relação a este linguajar bem popular a uns quilómetros a norte da minha terra mas que no Casteleiro não usamos e não conhecemos.
Como não entendi o que é a «chouchana» referida pelo padre no último episódio; ou, noutro texto anterior, não entendi o que significa «bater a sota».
Porquê? Porque o «ethos» do Casteleiro é diferente, claro – é esse o meu ponto.
E já agora, registo outra diferença: na Raia trocam-se os bês pelos vês, melhor: os vês lêem-se como bês, à moda e por influência espanhola.
E isso leva-me à palavra «verduada» recentemente usada pelo mesmo autor. Acho que virá de bordão e que o Povo a usa ou usava, e bem, para significar «bordoada».
Essa forma de falar também faz / fazia a diferença. E isso é bom: cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso… (já agora).

PS – Hoje também me compete emendar a versão ficcionada pela autêntica de uma estória que se conta no Casteleiro. Trata-se da época do volfrâmio (década de 40 do século XX). A malta do Vale de Lobo (hoje, Senhora da Póvoa) tinha muito, mas muito dinheiro no bolso. Diz-se no Casteleiro que um dia três volframistas tinham ido a Lisboa e, no regresso, no comboio, entusiasmaram-se e compraram o comboio ao revisor… comboio que deixaram em Belmonte por falta de via até à sua terra.
Pois bem impõe-se que rectifique duas coisas: 1ª – não vinham de Lisboa: foram a Belmonte de propósito para comprarem o trem para não andarem sempre de carro de aluguer a levar o volfrâmio à Covilhã; 2ª – não chegaram a comprar o comboio: o revisor não o vendeu dizendo que o caminho-de-ferro não podia ser desviado.
Mas, acrescenta a minha fonte, que é do Vale e conhece a história de forma directa pois era vizinho dos volframistas:
– Mas eles ainda queriam comprar o comboio e diziam ao revisor que o levavam pela estrada!

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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