Cada povo tem entre a sua gente almas de toda a casta e condição. Assim se passava na minha terra no tempo antigo, e ainda hoje, quando já poucos aqui moram. Pois lhes conto que havia cá dois moços desvairados que todos tolerávamos, menos o casmurro do padre Narciso que a todo o custo queria que tomassem carreira direita.

A Maria Rita, que era filha do Zé Barra, era uma taranta. Galreava de manhã ao anoitecer: que a mãe lhe botara o gadanho à travessa de pentear o cabelo; que os manos lhe puxaram o fio da roca; que a marrana velha trepara a escaleira e estrumara no balcão. Os de casa aturavam-lhe pacientemente o escarcéu, pouco ligando àquelas sismas.
O povo também fazia orelhas moucas às bacorices, tirando uma ou outra mulher, que fazia cruzes quando os impropérios eram por demais ultrajantes.
– É uma soventa! Na malcriadez da faladura ganha aos grunhidos de um cevado! – dizia por vezes a Marquinas, que era a maior beata da terra e muito amiga do padre Narciso, a quem, diziam as más línguas, satisfazia os apetites carnais.
O Tó Faleiro, maltrapilho da locanda, tido como amigo do Mafarrico, era chanfrado como a Maria Rita e divertia-se reinando com ela. De cabelo revolto, nariz largo e achatado como o de um africano, leve penugem sebosa a cobrir-lhe as béculas, passeava pela aldeia na pedincha. Alguém, à maldade, lhe metera na tola que a Maria Rita precisava de macho para lhe acalmar a cachondice, e já nada o fez ficar quedo.
Aproximava-se do curral do Zé Barra e recitava uma cantilena que a loucura lhe gerara na cachimónia:
Lagarta lagartixa,
chiba chibarra,
chega-te à roda
toma a mamarra!

De dentro do casebre saía uma vaga de palavrões e voavam bancas e tamancos. O Faleiro corria então desenfreado para junto do pio, que ficava a um canto do adro, onde soltava gargalhadas. Depois, passado o vendaval, rodava à cata de uma côdea.
Os catraios gozaram a bom valer, ora se juntado ao tolo nas risadas, ora fazendo coro com a estouvada no escarcéu dirigido ao pelintra.
A aldeia já se habituara, a estes engrimanços e vozearias repicadas. Só o padre Narciso se não conformava com aquela vivência e tresjurava que com a ajuda de Deus havia de meter os orates na linha.
Se estivesse na sacristia, vinha à rua e chamava o Tó Faleiro. O farrabraz acudia como um cordeiro e ouvia, caludo e de cabeça baixa, a repreensão do padre, que o benzia com água benta e o remetia para fora do adro.
– Põe-te ao largo Tó!… Para berreira já bonda a da Maria Rita, que vive naquela furda.
O Faleiro rodava dali, atravessando o terreiro a passo lento, de espinhela torcida e pernas abauladas. Não tardava porém a volver para continuar com as suas malandrices.
Da Maria Rita o padre Alípio tinha temor, pois a coitada, acometida pelo desmando, não se lhe calava um instante.
De uma vez, quis ir a falas mansas com ela, a ver se lhe metia juízo na cachimónia, falando-lhe de Deus e dos Santos.
Eu, que estava no meu balcão, comendo uma côdea, assisti a tudo.
O padre, caminhando pela rua, encontrou-se com a Maria Rita, que provinha da fonte com um cântaro de água à cabeça.
– Deus te abençoe Maria Rita. Já rezaste as orações da manhã? – perguntou-lhe o abade de falinha donairosa.
– Esta nôte vi Nossa Senhora – disse-lhe a moça de repelão.
– Ah, sim?! E contas-me esse sonho lindo?
– Vi Nossa Senhora toda encarrapata e escarrapachada num cavalo castanho, que corria doudo p’las tapadas.
– Ora, és uma chouchana – atirou-lhe o padre Narciso, que virou costas e rodou para casa, afinal ciente que não era capaz de lhe curar a maluqueira.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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