A raia ribacudana é, desde tempos remotos, uma terra de gente bravia, criada entre penedias e chavascais. Vivendo num território algo inóspito, onde impera o barrocal e o clima é de extremos (bem ilustrado no famoso rifão: nove meses de Inverno e três de inferno), o íncola raiano viveu isolado durante séculos, sujeito a si mesmo.

A proximidade da linha de fronteira de Portugal com Leão, que ora avançava ora recuava, trouxe a estas terras a actividade castrense, hoje ainda bem visível pelo elevado número de castelos e fortalezas existentes. Era pois num ambiente de guerra, factual ou pairando como ameaça real, que o raiano se habituou a viver, tendo de proteger-se de tudo e de todos.
Com a prevalência de Portugal no domínio do território, que se seguiu ao Tratado de Alcanizes, em 1297, o povo sentiu maior acalmia, mas passou a sofrer a pressão do poder político e administrativo que o queria manso, trabalhador e cumpridor de seus deveres. Assistiu atónito à instalação de câmaras, cadeias, igrejas, conventos, mosteiros e um vasto conjunto de repartições públicas, tudo sustentado pelos magros proventos do seu trabalho. O campónio, que fossava a terra de sol a sol, na ânsia de sobreviver, tudo teve afinal que custear com o seu magro pecúlio.
Comia o que a terra dava, sem outros mimos. Em esforço colectivo, ergueu pontes e pontões, troncos de ferrar animais, eiras de malhar cereais, moinhos e engenhos de tirar água, tudo na perspectiva de melhorar os equipamentos de produção, na ânsia de uma vida melhor. Mas os zelosos funcionários do Estado montaram-lhe nas barbas a terrível máquina burocrática. Os paços do concelho e as repartições passaram a representar o poder político, que o oprimia, enquanto pelourinhos e forcas representavam a pesada mão da justiça, que o castigava impiedosamente.
E de que se ocupou este homem quase selvagem que se fixou em Riba-Côa? Pois lavrou e semeou a terra pedregosa, andou de pau em riste na arte da caça, pescou armando o galrito, emparelhou pedras para construir habitações. Pegou também em armas para servir nos exércitos, comerciou por onde pôde e, os mais engenhosos, dedicaram-se a artes essenciais, como a carpintaria, a frágua e a alfaiataria.
É pois muito venturoso este povo, que sempre andou envolto em acções de audácia. O maior desafio foi a tentação do proibido. Se lhe era vedado atravessar a fronteira para intercâmbio com os povos do outro lado, o raiano não se acobardou e desatou a cruzar a raia, na inquietação constante de comerciar com Espanha para arranjar sustento. Como bem lembrou o pensador bismulense Manuel Leal Freire, o contrabando era um delito, por força das leis vigentes, mas para o povo crente tal prática nunca foi pecado. Não acorria a estes homens valentes, que pela calada da noite atravessavam carregados a raia, declararem em confissão religiosa, perante o abade, terem errado por contrabandear.
Mau grado a amenização da fome pela via da candonga, que sempre dava algum ganho suplementar, nem assim o povo raiano conheceu a felicidade. Os tempos eram difíceis e trabucava-se a valer, cavando os terrenos, carrejando pedras, desbastando matagais, ceifando e malhando os cereais
Depois, quando todas as esperanças de uma vida melhor na sua própria terra se desvaneceram, deu-se a grande abalada que condenou as terras a uma aridez progressiva. Cansados de tanto lutarem em vão pela vida, os homens deixaram as famílias e deram o salto para franças e araganças, na busca de melhores oportunidades. Foi um acto de coragem, movido pelo desespero de uma vida de miséria que não lhes garantia futuro.
A emigração foi, a seguir ao contrabando, a grande aventura colectiva do povo raiano. Entregou-se a passadores e engajadores, muitos sem escrúpulos, e aceitou lá longe todo o género de trabalhos, sem reivindicar condições, sem exigir salários justos: o que vinha era sempre melhor do que o nada. Resignado, adaptou-se ao novo mundo.
Mas o nosso raiano também gosta da farra e do divertimento. Desde logo no jogo, uma das suas grandes perdições. Jogo a dinheiro, nunca a feijões. Também, nas festas e romarias anuais onde nunca faltava e onde comia rancho melhorado, mau grado as dificuldades do quotidiano.
Porém a maior valentia nestes actos lúdicos estava nas touradas raianas, no desafio de pegar os bois agarrado à galha do forcão. Em tempos idos os touros eram desviados das campinas de Espanha, de onde eram conduzidos às aldeias raianas portuguesas, para ali serem lidados com o forcão. A juventude agarrava-se à base de madeira, de forma triangular, em cujo manejo demonstrava a ousadia, numa prática ancestral e única que muito prezava manter.
O homem raiano é também temente a Deus e, sobretudo, às más artes do Diabo. Todas as tardes recolhia a casa ao toque das Trindades para rezar uma jaculatória. Aos domingos descia à igreja. Ia nas romarias de cruz alçada, rezando ao Santíssimo pelos mortos e pelos vivos e implorando sorte nas lidas da vida. Na Quaresma cumpria a rigor as restrições canónicas e fazia a desobriga pascal dizendo ao vigário o rol dos pecados.
De mistura com o culto religioso, o raiano vê nas festividades a ocasião para dar largas à diversão. Por isso as festas em honra da Senhora e dos Santos têm tanto ou mais de profano do que religioso. Para ele uma peregrinação assume a forma de romaria, onde não faltam as flores e as roupas garridas, a concertina e o acordeão, o vinho que jorra dos pipos e as suculentas merendas que se comem à sombra das frondosas árvores.
O que concluir do homem raiano, do seu ethos? Talvez se lhe aplique que nem uma luva a receita de José Osório da Gama e Castro (Diocese e Distrito da Guarda, Porto, 1902) sobre a índole dos beirões: «são caracteristicamente lhanos e afáveis, dóceis, hospitaleiros, em extremos laboriosos, e amantes da ordem, que muito convém à sua actividade agrícola e industrial».
Ou quiçá a visão mais realista de Aquilino Ribeiro (Guia de Portugal, Lisboa, 1924), também sobre o Beirão: «É empreendedor, vivo, laborioso (…). Ao mesmo tempo é industrioso, por vezes astuto até à manha, económico, mas sem usura, de boa memória para o bem e para o mal. Daqui ser animado de dedicações ou de ódios que apenas o sacrifício ou a desafronta satisfazem. (…) É esmoler, religioso, mas de uma religiosidade milagreira ou de arraial, marcado raramente de fanatismo».
Melhor nos serve a palavra do maior etnógrafo de Riba-Côa, Joaquim Manuel Correia (Memórias sobre o Concelho do Sabugal, Lisboa, 1946), acerca do carácter das suas gentes: «Povo religioso, sem grandes fanatismos, é, como os vizinhos espanhóis, alegre, divertido, sentimental e apaixonado pela música, poesia e pelos touros».
Paulo Leitão Batista

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