Guardo uma rodada de amigos em cada terra por onde a vida me conduziu. A mor parte vêm do tempo da candonga, em que éramos comparsas na façanha de cruzar a raia evitando os encontros com os fuscos e carabineiros que nos queriam aliviar-nos as costas.

Uma noite entretive-me na taberna da Benvinda, em Nave de Haver, onde a turba da terra se juntava, beberricando vinhaça, batendo a sota e falando na vida. Moços de lavoura, pastores assoldadados e contrabandistas, eram os melhores fregueses da venda, onde imperava uma forte zoeira até horas tardias.
Estava ali de carava com o meu amigo Zé Laio, natural daquele povo, contrabandista de nomeada, vergalhudo e arrojado como poucos. Tínhamo-nos mancomunado para a lide e sabíamos que quanto mais tarde botássemos o carrego ao costado melhor sucesso teríamos na faina. A Guarda alapardava-se nos locais de passagem da raia desde o cair da noite, de orelha fita, à espera que algum cargueiro lhe passasse ao redor. Mas à medida que a noite avançava atacava-lhes a soneira a que, não raro, os guardas sucumbiam. Por isso o Zé Laio preferia alombar com os fardos quando a noite já ia longa e o amanhecer não tardava. Eu, que era um admirador da sua matreirice, guiava-me por ele.
A certa hora, seguindo a nossa ariosca, despedimo-nos da bisca e dos amigos e saímos da taberna. Metemos por uma quelha e atingimos o curral onde os carregos nos esperavam. Já alombados, seguíamos cosidos à sombra das casas, quando, ainda dentro do povo, o Zé Laio acusou uma forte dor de ventre, por lá devida ao fartanço de vinho e de churros que emborcara. Não aguentou e agachou-se ao redor de um muro a dar de corpo, ficando eu de alerta.
Atarantei-me quando esgutei o zoar de botas cardadas e mirei o luzir dos botões de uma farda. Era um fusco que se aproximava. Mandei o fardo para lá da parede e dei um assobio abafado, para avisar o Zé Laio que o perigo rondava.
O guarda, que ouviu o silvo, veio ao meu encontro, ao mesmo tempo que o meu amigo se me juntava. Para não levantar suspeitas, fingi que procurava algo no solo, no que o Laio me imitou prontamente.
– Olha, que melros – disse o guardilha, que era o Belarmino, por nós bem conhecido – que fazeis a esta hora da noite?
– Vimos da taberna, e aqui saltou-me a naifa das mãos quando ia a debulhar uma maçã. Andamos à cata dela… – disse eu, matando-lhe a curiosidade.
O Belarmino, que era um homem daimoso, riu-se da parte, e quis ser prestável.
– Se aí caiu, aí tem que estar… Eu vos dou uma ajuda.
– Bem-haja, mas tenha cautela, que a naifa tem a folha aberta – avisei-o.
E o prestável fiscal amagou-se, a apalpar a terra na ânsia de bulir na navalha perdida. Tal rondou na parte ensombrada pela parede, que a um momento tocou no monte do Laio, e berrou surpreso:
– Porra!
Ao que o Zé Laio reagiu:
– Ah ladrão, que já te cortáste!
E largámos dali à desfilada, rindo-nos da parte. Só já quase ao nascer do Astro retornámos para resgatar os fardos e avançar com eles para Espanha, levando-os ao seu destino.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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