Quando, aos emissores da Rádio Renascença, soava a «Grândola Vila Morena» na voz de Zeca Afonso, a revolução estava em marcha.

Era a madrugada de 25 de Abril de 1974 e punha fim a um longo período de ditadura (48 anos). Restaurava-se o princípio da democracia, libertava-se a liberdade e soltava-se ao vento de Abril a esperança pintada de cravos vermelhos. Estes, que dariam nome à revolução, representavam o fim da opressão política, social e económica. O fim de uma guerra teimosa e a possibilidade de estancar a hemorragia da emigração. O fim do isolamento do povo que deu «novos mundos ao mundo» e devolvia a dignidade de pessoas e cidadãos a um povo humilhado e vergado ao medo.
Aquela madrugada devolvia a honra a uma nação e, com ela, o ocupar o seu lugar entre as outras nações, sem se envergonhar. Aquela madrugada trazia à rua as vozes durante tanto tempo caladas que, agora, ocupavam cada cidade, vila e aldeia. O povo estava na rua, desta vez sem medo e convicto que o futuro lhe pertencia. E o grito libertado, solto, ecoava por todos os recantos da nação e por todas as nações.
Aquela madrugada prometia o raiar de um dia novo.
Mas, importa perguntar hoje, 38 anos depois, onde está essa madrugada? Onde está o povo que gritava na rua a sua esperança e que, com cravos vermelhos, pintava o futuro? Onde estão os cidadãos e as pessoas e a sua dignidade? Onde está a honra da nação?
Vividos estes anos de democracia, os princípios que a norteiam e sustentam, têm vindo a ser colocados de parte e esquecidos por todos. Alterámos o paradigma de comunidade e sociedade para um que, somente nos deixa ver o nosso umbigo. Esquecemos a fraternidade e a solidariedade que nos torna pessoas e pessoas que vivem umas com as outras. Tornámo-nos egoístas. Mandámos para as calendas a cidadania, exigimos direitos e ignoramos os deveres. Substituímos a ética pelo «chicoespertismo». A política pela aldrabice e o servir pelo servirmo-nos. Deixámos que a democracia se tornasse num negócio, onde a justiça, a saúde, a educação, a segurança… se compra e se vende.
Os tempos que correm trazem dificuldades. Colocam-nos perante novos desafios e exigências. E colocam-nos novas expectativas. De certa forma colocam-nos, de novo, nessa madrugada. Só resta saber se seremos capazes de a transformar em manhã.
De certa forma, falta cumprir Abril.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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