Naqueles tempos, há mais de cinquenta anos, os habitantes da Bismula viviam com imensas dificuldades. Era fundamentalmente através das atividades agrícolas e da pastorícia que sobreviviam, com a ajuda das jornas contrabandistas em terras fronteiriças. Todos os terrenos disponíveis eram cultiváveis. Não havia campos incultos.

Os cereais (centeio, trigo, cevada e milho) eram primordiais na alimentação humana e também para os animais.
Os terrenos das searas passavam por três fases ou folhas como o povo chamava. Na primeira, em Março, começava- se a decrua das terras, eram lavradas. Na segunda as searas ficavam no seu normal crescimento e na terceira as terras estavam de poisio ou em repouso.
Começa aqui o ciclo do Pão. Em finais de Setembro e Outubro procedia-se à sementeira do centeio. Onde não chegava o arado eram feitos os cadabulhos com a enxada. As terras eram adubadas com o Nitrato do Chile. Com a semente nascida procedia-se a uma apara com dois objetivos: uma melhor ceifa manual e arrancar algumas ervas daninhas.
As ceifas iniciavam-se pelo S. João, S. Pedro, em finais de Junho. Organizavam-se os ranchos de ceifeiros e ceifeiras em trabalho de parcerias, dado que rareava o dinheiro, daí a necessidade desta permuta. Era um trabalho árduo, debaixo de sol escaldante, que exigia refeições reforçadas. Não faltava o presunto, a chouriça do porco caseiro ou as saladas de bacalhau. Matava-se um borrego, um cabrito, fazia-se um bom ensopado acompanhado com uma refrescante salada de alface. Ao cair da noite regressavam à aldeia cantando ao desafio os diversos ranchos. Antes do repouso justo ainda se comiam as milharadas, feitas com farinha de milho e trigo, misturada com leite.
Feitas as ceifas, atados os molhos das espigas, seguia-se o trabalho da «carranja», que era o transporte em carros de bois para as Lages ou Eiras, onde organizavam as medas, um belo conjunto ordenado dos molhos do centeio.
Na Bismula havia naqueles tempos as Eiras ou Lages dos Pinas, da Tia Maria Emília no Barroco Grande, do Corvo, do Chão do Pinto, do Vale das Mós e do Pombal. Ali malhava-se o cereal com um grupo de homens que, sob a voz de comando, com mestria e cadência, exercitavam os manguais. Destacavam-se neste trabalho Manuel Moleiro, José Vaz, Francisco Carvalho, Joaquim Salgueira, José Pinheiro, Joaquim André Teixeira, entre outros. A ajudá-los havia duas ou três mulheres, as espalhadeiras, com destaque para Maria da Graça Polónia e Maria Pinheira.
Mais tarde surgiram as malhadeiras, que trabalhavam por força de um motor através de correias anexas, de forma a facilitar a tarefa da separação do cereal e da palha. Foi um grande avanço tecnológico, de grande rapidez e sem esforço humano. Também começaram a surgir os motores de rega a petróleo, que também veio revolucionar as regas.
Recolhido o centeio, este seguia para as arcas, a fim de cumprir os compromissos anuais da irmandade, as côngruas, os pagamentos dos adubos e, em maior quantidade, para ser moído, escolhendo-se a melhor semente para futura germinação.
A moagem era concretizada nos Moinhos de Água, na Tapada Ribeira, propriedade de Maria Luiza Fernandes e José Polónia. Mais abaixo, perto de Badamalos, na Negreira, uma outra propriedade de Manuel Salgueira e Manuel Joaquim Polónia. Em Valongo do Coa, também havia o moinho de César Moleiro e Manuel Pires e na Rapoula do Coa moeram muito cereal dos bismulenses.
Obtida a farinha era peneirada e o farelo era de muita utilidade para as viandas dos porcos caseiros. A sua cozedura acontecia principalmente no Forno Comunitário, ainda existente. A Junta de Freguesia procedia à arrematação de lenhas, ramos de pinheiro, giestas, para o seu aquecimento. Muitas vezes, Manuel Martins Salgueira e António Fernandes ganharam esse concurso público. As grandes forneiras eram a Alexandrina Abeira e a Guilhermina…
Conforme o número de pães cozidos, assim se pagava a poia e o seu tamanho era variável de acordo com a fornada.
Tinham fama as célebres broas feitas com farinha de cevada e leite feitas pela Maria Rita Trindade. Cada vez que penso nelas, vem-me muita água à boca, porque as tenho muito presentes.
Além do Forno Comunitário, havia mais quatro fornos de propriedade particular. O mais antigo situava-se no local do Cabeço e pertencia a António Fernandes, José dos Santos Leal e Manuel Martins Salgueiro. Também naquele local havia um outro, pertença do Carloto e Varjão. Junto do Forno Comunitário, havia o dos Pinas e o quarto era propriedade de Manuel Lourenço e Joaquim Rasteiro.
A maior parte dos habitantes da Bismula tinham pequenas searas. Mas os grandes produtores eram Manuel Joaquim Polónia, Manuel Martins Salgueira, António Fernandes, José dos Santos Leal, António Lopes Carreto, Albertino Vaz, José Maria Fernandes Monteiro, Celestino Nunes, Joaquim Cordeiro, Manuel Varjão, Joaquim Leal, João Polónia, João «Lagarto» Fernandes, António Adão Fernandes, António Valente, Joaquim Leal Fernandes e tantos outros.
Assim se fecha este Ciclo do Pão na Bismula, que envolvia um Povo Trabalhador.
Ao terminar este texto, recordo duas frases que a minha avó repetia muitas vezes: «o Pão é como a roupa, umas vezes melhor que a outra, e os meus saudosos Pais ensinaram aos filhos que «o Forno deve cozer todos os dias e o Pão que lá seja colocado é o fruto do suor do nosso rosto». Além de uma grande simbologia religiosa que o pão encerra.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

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