Passou um ano desde que voltei a Lisboa. Entre Setembro de 2010 e Abril de 2011 colaborei na Câmara Municipal do Sabugal após insistentes e reiterados pedidos e convites do senhor engenheiro presidente António Robalo. Entendi escrever esta crónica após um estranho desabafo facebokiano provocador, desonesto, mentiroso e próprio de alguém que vive de truques para agradar à assistência. Nunca pensei ter de tornar públicos alguns episódios mas, de facto, no imaginário da conspiração qual labirinto subterrâneo que nos distrai do que acontece à superfície nem sempre ilusionista rima com estadista.

Termas do Cró - Sabugal

José Carlos LagesEstamos no final de Abril de 2012. Passou cerca de um ano desde que cessei funções na Câmara Municipal do Sabugal e no meu regresso a Lisboa tinha arquivado esse período no dossier dos grandes equívocos da minha vida. Olho para trás e confirmo que este último ano foi uma licença de nojo própria de quando perdemos algo muito querido. E eu perdi. Perdi a convicção que alimentei durante muitos e muitos anos de ajudar com os meus conhecimentos no futuro da minha terra. Promover o Sabugal tem sido o grande objectivo deste blogue que está na rede desde Dezembro de 2006 e desafio qualquer um a dar-me um exemplo de uma linha que tenha escrito durante o último ano sobre esse período ambíguo da minha vida profissional. Faço questão de reforçar a palavra profissional porque sabem os que comigo conviveram mais de perto este equívoco que sempre pretendi ajudar, com a minha experiência profissional, o meu concelho. Destaco, também, «concelho» porque sou raiano sabugalense recordando, sem qualquer prurido, que não habito no concelho do Sabugal. Apenas me limito a pagar IMI’s, contadores de água e taxas de lixo durante 12 meses por ano e a votar… na freguesia de Ruivós. E porque estamos em Abril reafirmo que continuarei a pensar o Sabugal e a ter opinião sobre o Sabugal. Ensinaram-me que em comunicação não há notícias boas e más. Há notícias. Mesmo que digam respeito a um lugar que parece parado no tempo e distante do mundo.
Aproveito para clarificar alguns episódios. A minha decisão de ir trabalhar para o Sabugal (contra a vontade da minha família e especialmente da minha querida mãe) foi o resultado de um intenso assédio em Lisboa, no Sabugal e na Ruvina onde por diversas vezes me reuni com o actual presidente, António Robalo, e onde este insistia na imperativa necessidade da minha colaboração na equipa da presidência. Ao contrário do que foi interpretado (por alguns interessados no tema) nunca fui convidado pelo vereador Joaquim Ricardo. O convite para colaborar na Câmara do Sabugal foi sempre endereçado pelo engenheiro António Robalo. «Grandes projectos pessoais do presidente precisam da tua experiência», dizia-me simpaticamente. Elaborei e deixei concluídos variados projectos. Alguns deles foram inclusivamente apresentados a todos os vereadores e técnicos camarários no salão nobre. Recordo alguns: levantamento fotográfico e candidatura da renovação sinalética turística e rodoviária de todos os cruzamentos do concelho do Sabugal; renovação do departamento de comunicação da câmara; estudo gráfico e jornalístico para produção do importantíssimo Boletim Municipal Mensal (projecto emblemático para a presidência); criação de parques para caravanas com sinalética promocional e rotas dos cinco castelos nas principais estradas de entrada no concelho; renovação sinalética do parque industrial do Sabugal; grande estudo de promoção e lançamento do complexo Termas do Cró (recordo um caricato episódio em que foi pedido um logótipo para as Termas que a presidência não sabia que estava já a ser elaborado por uma empresa da Guarda); restruturação dos sites da câmara, da empresa municipal e das Termas do Cró (para culmatar a falta de tempo dos técnicos camarários de webdesign); elaboração de uma exposição de trajes de confrarias no Museu e respectivo catálogo de apresentação (pedido muito especial do presidente); e a concretização de um encontro no Jamor com Mirandela da Costa para a elaboração de um projecto de um campo de golfe num determinado local do concelho do Sabugal que me abstenho de divulgar.
O vosso ar de espanto alimentará esta crónica que nunca pensei ter de escrever. O mundo está a mudar. Muda tudo tanto e tão depressa. Mas no concelho do Sabugal vive-se uma realidade irreal. Num concelho onde todos os indicadores estão no vermelho quanto à desertificação alimentamos os regulamentos e a regulamentação. Para quem? Estranho! E depois há regulamentações patéticas como aquela da praça de táxis do Sabugal no Largo da Fonte em frente à CGD onde o primeiro lugar da fila foi pintado num local onde os passageiros para entrar na viatura têm de passar pela relva. Não sei se já foi alterado mas inicialmente esqueceram-se que as pessoas entram no táxi pelo lado contrário ao do motorista. Neste caso passando por cima do canteiro da relva que de tanto pisado desapareceu. Magia.
Mas a verdade é que tudo se resume a uma impressionante capacidade de apresentar novos truques todas as semanas. Nestes truques só continuam a faltar pessoas, empresas, pessoas, fábricas, pessoas, pessoas e pessoas.
Diz o senhor engenheiro presidente que o blogue «no período em que um deles colaborou na Câmara… era tudo sucessos e o presidente o melhor do mundo». É verdade. Naquele tempo ainda houve muitos eventos e iniciativas que mereciam ser noticiadas. Destaco o centenário da República, o Balcão Único e a Taça Hugo Santos. Boas iniciativas que foram comunicadas e promovidas, ao mesmo tempo e sem privilégios, para todos os órgãos de informação com comunicados de imprensa e de acordo com o príncipio de um departamento de comunicação e imagem profissional. Se agora não há sucessos «políticos», perdão, autárquicos em forma de comunicado deverá o presidente questionar os seus assalariados porque parecem nem motivação ter para promover o esforçado trabalho da presidência.
Mas vamos a mais um tema que me agrada de sobremaneira. «O presidente (pessoa magestática) não está disponível para financiar devaneios». Será por isso que tudo fez para me convencer (depois de deixar o Sabugal e voltar a Lisboa) a ir trabalhar para o empresário António Reis do Ofelia Club? Será por isso que pediu ao seu chefe de gabinete para me convencer a aceitar o dito «emprego»? Será por isso que enviou um emissário a Lisboa para se reunir comigo no Olivais Shopping no sentido de me convencer a aceitar ir trabalhar para o dito empresário? Grande devaneio. E por falar em devaneios que tal recordar uma loja que foi comprada pela ProRaia em Campo de Ourique (Lisboa), com a assinatura do senhor engenheiro para promover os concelhos do Sabugal e da Guarda, que nunca chegou a abrir e que entretanto já foi vendida (ao que parece) a uma empresária farmacêutica guardense.
Devaneios senhor engenheiro presidente? E que dizer daquele projecto «Veneza da Beira» que pretende fazer a renovação urbana da cidade do Sabugal. «O conceito central está na Rua Teófilo Braga com a água a ser o tema principal do espaço público e pretende resolver os problemas de segurança rodoviária (?!?) e congestionamento de tráfego no cruzamento junto às Finanças(?!?)», mudando o curso da água do rio Côa de forma a transformar as ruas do Sabugal em pequenos ribeiros com cascatas que desaguam num imenso lago que cobrirá por completo o actual Largo da Fonte. – Mais uma mentira do blogue Capeia Arraiana? – O projecto foi apresentado pela arquitecta Cláudia a todo o executivo na reunião pública de 14 de Novembro de 2010.
Equívocos, senhor engenheiro presidente? Só os que dizem respeito à falta de espaço na sua Câmara e no seu desertificado concelho. Esse será o grande equívoco da sua presidência.
Uma das coisas que mais me surpreendeu no meu contrato de colaboração com a autarquia foi a ausência de qualquer alínea que me obrigasse ao sigilo profissional durante e após cessação de funções. Mesmo assim, assim fiz porque entendi ser o mais correcto. Assim o deixei de fazer hoje porque me difamaram. Muito fica por dizer. Gostaria que não me obrigassem a voltar publicamente a memórias de outros episódios que muito me desagradam.
A terminar recordo que, apenas por estar a colaborar na câmara, fui pessoalmente injuriado num blogue por um desprezível e reles anónimo (com a consentimento do seu também reles administrador) e num jornal do concelho (que deveria saber o que é responsabilidade editorial) por alguém que já tem idade para ter juízo e que faz do juízo o seu ganha-pão. Na altura, na presença de várias testemunhas, o presidente pediu-me para ficar calado porque «esses jornais» ele «nem do plástico tirava e iam directamente para o lixo».
Para os que ainda não sabem eu explico as razões de tanta azia do tal opinador/político/proprietário: em Março de 2006 fui convidado no Restaurante Robalo por essa pessoa para ser director do jornal de que é proprietário. Agradeci mas disse não ser possível aceitar porque os meus projectos passavam pelo online. Nunca me perdoaram. E o resto já todos sabem.
Fui, sou e serei sempre um sabugalense livre.
«A Cidade e as Terras», opinião de José Carlos Lages

jcglages@gmail.com

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