É notório, só ainda não viu quem não quer ver, que em Portugal há uma estratégia de classe, banqueiros e grandes empresários estão a ultrapassar o Sistema Parlamentar. Quando isso acontece, a Democracia fica extremamente debilitada. Temo, que o tempo que vai de Spínola a António Guterres tenha sido mais um parêntese na História de Portugal…

António EmidioTambém é verdade que Portugal presentemente não está a ser governando por uma classe política, mas sim por tecnocratas a soldo do grande poder financeiro e empresarial. Estes tecnocratas estão a aproveitar-se da crise para lançar «reformas» que estão a debilitar o Estado Social, a precarizar o emprego e a entrarem num processo de subdesenvolvimento do País. Estas políticas beneficiam basicamente os grandes poderes económicos, não só portugueses mas também dos países centrais, como a Alemanha e a França. Impossível chamar-lhes políticos, um político guia-se por princípios, estes não os têm, para eles vale tudo, tudo está permitido. Passos Coelho e os seus ministros são a coisa mais parecida, em alguns aspectos, sublinho, em alguns aspectos, com aqueles ditadores sul-americanos que em finais dos anos 70 do século passado entregaram a riqueza dos seus países aos Estados Unidos e a uma oligarquia autóctone, deixando os seus povos na pior das misérias, tudo isto com o aval do FMI.
Quando por essa altura lia o que se passava na América Latina, ficava impressionado e, nunca me passou pela cabeça que um dia o meu País cairia presa de predadores internacionais. Visitei então um país da América do Sul, do muito que vi, e me contaram gravei isto: onde estava a verdadeira classe política desse país? Alguns homens e mulheres tinham sido assassinados pela ditadura, outros e outras, estavam presos, no exílio, ou votados ao silêncio. Tinham sido substituídos por uma classe de tecnocratas da estrita confiança dos Estados Unidos. Na Europa, presentemente têm que ser da confiança da Alemanha e do FMI.
Diz o primeiro-ministro Passos Coelho que é preciso retirar o Estado da economia e da política. Não deve ser assim, o papel do Estado é voltar já à política e à economia! Retomando as rédeas que abandonou ás mãos de gente incompetente que não é capaz de nos levar a lado nenhum, a não ser para o abismo. Como podemos pagar a dívida ilegítima com estas medidas económicas que são um travão ao crescimento? Para uma economia familiar, o rigor orçamental é motivo de satisfação e até de orgulho, mas para um estado significa a ruína de milhares e milhares de cidadãos, o que acontece em Portugal presentemente.
Se Passos Coelho fosse um político, dizia-lhe que a democracia vai muito mais além do acto eleitoral. A legitimidade dos governos vem da eleição democrática, mas esta legitimidade só se mantém com a fidelidade a um programa (o que não está a ser o caso dele, na campanha eleitoral disse todo o contrário) e com o serviço indiscutível a todos os cidadãos (o que também não é o caso dele). Se assim não for perde legitimidade.

Amanhã querido leitor(a) é dia 25 de Abril. É dia de mostrarmos a nossa insatisfação por toda esta maneira de governar, porque a razão moral e a razão política foram substituídas pala razão económica. Sabe-se que a União Europeia não exigiu uma reforma laboral tão radical como a que está a ser levada a cabo pelos actuais tecnocratas que nos governam, contrária ao Estado Social, Estado Democrático e Estado de Direito. Esses tecnocratas estão a receber ordens da classe financeira e empresarial portuguesa, é esta classe dominante que controla a economia e estabelece as normas segundo as quais actuarão os tecnocratas. Dentro do País a classe financeira e empresarial estão a aproveitar-se.

Quanto ao possível encerramento das Finanças no Concelho, só tenho a dizer o seguinte: quando o Estado abandona uma região, como é o caso do nosso Concelho, economicamente deprimido, com uma população envelhecida e com o êxodo dos mais jovens, alguém virá substituir o Estado. Esse alguém será um conservadorismo serôdio e inerte no pensamento, mas moderno no estilo de vida, o caciquismo e a corrupção. Nada me provocava uma imensa alegria, do que estar enganado…
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

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