Casteleiro não é só nome de terra. É também nome de família. E é também substantivo comum: de profissão ou de condição. E é nome próprio, nome de família, não só em Portugal, e em várias terras pelo menos próximas da minha aldeia: também na Galiza e ainda no Brasil. Descobri isso há dias.

Vou falar de como me deu para investigar um pouco isto tudo. Num daqueles azares da vida, há dias fiquei sem gasolina, mesmo ao pé de casa. Uma vergonha para quem conduz há meio século ou mais e nunca, mas nunca, teve esse deslize. Um telefonema longo – e a distracção inerente (nunca mais: mesmo com os auriculares, não me mintam, um tipo pensa em tudo menos na estrada e nas luzinhas do carro…). Mas tive a sorte de, mal ter parado, o Sr. Casteleiro me ter de imediato resolvido a questão.
Eu conheço-o. Eu também já o vi. «Eu chamo-me José Carlos Mendes. Eu chamo-me Casteleiro. Sei que o senhor é do Casteleiro mas eu sou Casteleiro de nome, e conheço a sua terra. Ah, sim, então e é de onde? Sou do Paul. Ah, interessante, ali tão perto».
Agora deu-me mesmo vontade de tirar a pontuação e dar uma de Saramago. Este diálogo seria escrito assim (divirta-se): «Eu conheço-o Eu também já o vi Eu chamo-me José Carlos Mendes Eu chamo-me Casteleiro Sei que o senhor é do Casteleiro mas eu sou Casteleiro de nome e conheço a sua terra Ah sim então e é de onde Sou do Paul Ah interessante ali tão perto».
(Faltou-me perguntar se era da família do famoso Prof. João Malaca Casteleiro, que é do Teixoso. Mas isso de pouco adiantaria: há outra família Casteleiro na Covilhã, já que a demissão de um dos seus membros da Misericórdia local foi notícia há dois meses. E, soube agora, lá para Santo Tirso há também notícia de uma família Casteleiro. Acabo também de saber na net, aqui, que várias outras palavras com a mesma origem são nomes de família em Portugal, no Brasil e até na Galiza. Interessante. São os seguintes esses nomes de família da mesma raiz: Castelão, Casteleiro, Castelo, Castro.)
Ponto final na história e vamos então ao tema do artigo: esta palavra Casteleiro e ou casteleiro.

De onde virá esta palavra Casteleiro?
Há quem não tenha dúvidas: os casteleiros são as pessoas que constroem os castelos, os castros, as fortificações – seja o que for: construção civil.
Um exemplo disso é o que se lê na Wikipedia, aliás num português um tanto irregular: «A origem etimológica da povoação está ligada ao facto de aqui procederem os canteiros e casteleiros que edificaram e fizeram a manutenção do castelo e fortificações de Sortelha».
Isto vale o que vale: vale a opinião de quem inseriu a nota.
Mas, concordo numa coisa: havendo à volta do que hoje é o Casteleiro tantos restos de fortificações, dificilmente se concebe que as pessoas do Casteleiro não tenham sido forçadas a construir esses «castros»: o mais antigo de que há notícia, perto do Vale da Senhora da Póvoa, do tempo do domínio romano, e ainda os três castros menores das faldas da Serra d’Opa e, a meia encosta da mesma, a fortificação castreja chamada Sortelha-a-Velha (ver foto neste artigo).
Uma nota pessoal: perante estas referências, não entendo como é que, numa terra com tanta tradição secular de construção civil, não houve quem construísse a torre da igreja nos anos 50 e foi preciso virem de fora os pedreiros que a construíram.

Castelo de Sortelha
Para outros, a origem será a seguinte: «Casteleiro: Aldeia que podemos ver do alto do Castelo de Sortelha. Seriam estes os casteleiros que construíram este Castelo histórico de Sortelha? Na área do Casteleiro podemos ainda hoje encontrar alguns vestígios dos Celtas, através dos castros aqui existentes ainda está bem à vista o castro actualmente designado por Sortelha Velha. encontra-se a poente, na Serra de Opa».
Portanto, a eterna alusão ao castelo e aos castros das serranias envolventes.
Outra tese… Pode consultá-la aqui.

O dono do Castelo
Quanto a mim, o nome da aldeia pode derivar de uma situação histórica ou lendária concreta que já contei. Há tempos escrevi sobre isso no «Viver Casteleiro». Na sua origem, a palavra Casteleiro relaciona-se sempre e de certeza absoluta com «castelo»: como adjectivo significa sempre algo que diz respeito ao castelo; como substantivo significa «castelão», ou seja, o dono do castelo.
Ou então: «casteleiro» pode ser o mesmo que «castelário» (senhor de castelo; casteleiro, castelão – segundo se lê no Dicionário On Line de Português).
Paralelamente é referida uma estória da História: haveria em Sortelha uma princesa cristã que se apaixonou por um árabe. Deram um beijo eterno, que ficou para sempre plasmado na rocha.
Os pais da princesa, donos do castelo de Sortelha, com o desgosto, renunciaram ao castelo e refugiaram-se nas suas terras do vale, já no local onde hoje fica a minha aldeia. Como eles eram chamados «os casteleiros», donos do castelo, a terra que fundaram passou a chamar-se assim: Casteleiro.
Verdade ou imaginação? Sabe-se lá…
Mas a verdade é que não resta no Casteleiro qualquer vestígio credível dessa migração fidalga. Não se vislumbra hoje no Casteleiro qualquer casa apalaçada que os senhores de Sortelha certamente teriam construído para viverem. Não estou a ver um senhor feudal a viver numa casinha das mais antigas do Casteleiro. Ora, onde está a casa feudal? Só se os palacetes do Largo de São Francisco foram construídos em cima de uma ruína desse género…
Mas a lenda com mais pormenores pode ser lida aqui.

Arquivo
Mas há mais para saber. Muito mais. Por exemplo, no Arquivo Distrital da Guarda. Para quem um dia quiser investigar parte do passado (população, baptizados, casamentos, óbitos, por exemplo, desde o séc. XVIII) aqui fica uma remissão útil.

Mapa
Onde fica a minha aldeia? Ali no fim do concelho, em direcção a Caria, logo depois do Terreiro das Bruxas e da Moita Jardim. Fui buscar aqui, na Wikimapia, um mapa sugestivo, diferente do habitual. Abra e analise.

O filme
Finalmente aqui, um filme gravado em diversas situações reais na minha terra: um vídeo que o leitor pode ver em sossego. São apenas quatro minutos e pouco.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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