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Pois lhes conto que um dos meus grandes desgostos foi ver a minha filha mais velha, a Cassilda, casada com um fusco das Batocas. Então eu, com uma vida inteira de carrego no costado a fugir a esses diachos, para a criar a ela e aos irmãos, e a lorpa a dar olhares e depois a anagalhar-se com um dos lapuzes?

Ainda por riba o Augusto Correia, que é esta a sua graça, para além de rabo de saias e colhereiro, era um guardilha pouco cumpridor do seu dever de autoridade. A laia que tinha era para andar de olho fito nos carregos de mulheres e catraios, mais fáceis de surripiar. Onde lhe fairasse a azeite, pão de torno ou galhetas, logo saltava ao caminho, de mão pronta a filar a mercancia.
Careio para o contrabando de alto quilate, o alma do diabo não o tinha. A mim, lhes juro, nunca pôs ele a mão na vestia nem me tomou qualquer carrego. Augado andou ele, mas nanja, que não tinha sorrelfa para isso.
Pois foi este babanca que caiu no goto da nossa Cassilda, para minha grande infelicidade. Tanto morgado que havia na terra, rapazes honrados e trabalhadores, lavradores ou negociantes, com bons dotes e anafados herdos, e a palonça a ficar caidinha pelo Gusto Correia, como se não houvesse outro poldrão no mundo…
Muito me envelhaquei quando soube do arremedo, que ela e a minha mulher me esconderam por basto tempo. Querendo tirar-lhe o vezo, ainda a proibi de sair com o pandilha e, de uma vez, até me predispus a abrir-lhe os olhos à lambada. Valeu a minha Belmira, que me trouxe à memória que também acasalara comigo sem o consentimento de meu sogro.
A verdade é que tanto andaram, aproveitando as minhas ausências no ofício de contrabandista e de negociante, que quando dei fé a coisa já ia de tal modo adiantada, que fazê-la volver atrás era um drama.
A custo lá aceitei que se botassem pregões, com a condição de o lapuz não me aparecer pela frente. Só lhe apontei falas no dia do casamento, quando o valdevinos, em plena igreja, se me dirigiu a pedir a bênção. Dei-lhe boas caras, mas botei-lhe entre dentes:
– Tem tento no que te digo. Se alguma vez me soar que zupas a minha filha és homem morto.
Ele arregalou os olhos e avermelharam-se-lhe as béculas, em sinal de que percebera o recado.
Mais tarde, na noite do Sagrado Nascimento, sentei-me à mesa com ele a consoar. Lá estive meio contrariado e retorcido, quando o jagodes me atirou ao rosto:
– Vossemecê, meu sogro, devia deixar o contrabando…
Logo acusei a assovelada.
– Olha lá, ó canastrão, e de onde me vinha o arrimo da casa? Metia-me a roubar?
– Podia viver da lavoura, que lhe dá cabonde.
– Que sabes tu da vida lafaruz? E diz-me lá que febre te faz o meu contrabando?
– O comandante do posto já me atirou às ventas que sou genro de um contrabandista…
– Pois não há mal em dizer a verdade… Responde-lhe que teu sogro é contrabandista honrado, que nunca escarrou na sopa de ninguém, nem assaltou gente nos caminhos, como os guardas-fiscais, que arrebanham mulheres e ganapos a toda a hora.
O salamurdo estremeceu:
– Se não larga a faina do contrabando, garanto-lhe que serei eu a filar-lhe a carga e a metê-lo no chilindró.
– Tinhas que nascer outra vez para me aliviares o carrego.
A Cassilda que esperava cria daquele machacaz, agarrou-se à barrigona em pranto, maldizendo a nossa zanga e falando que podia ter desmancho. Saí de casa e meti-me na loja de volta do vivo.
Nos tempos seguintes redobrei os cuidados, não fosse o meu genro querer tomar-me alguma carga, para me envergonhar. Mas andei muito tempo sem lhe botar a vista, para meu descanso.
Um dia de inverno, manhã cedo, tornando de Espanha com o macho carregado de fazenda, entrei numa taberna na Aldeia da Ribeira para tomar uma copa de aguardente. Estava eu de calecho entre os dedos, à conversa com a Ti Mariana, a dona da venda, quando notei um vulto a passar a porta.
– Então Ti Tosca, descuidou-se e acabo de o filar com o macho carregadinho de pana.
Era o sandeu do meu genro, que me montara trapa.
– A carga vem do mercado da Malhada, onde ontem estive e me demorei. Nunca ela viu a raia nem a Espanha – disse-lhe.
– Não tem forma de o provar. E ademais vi bem tratar-se de contrabando. Acompanhe-me ao posto que está preso.
Saí da venda magicando como escapulir, sendo que já não tinha a genica da juventude.
Cá fora o fusco ia pôs-me a mão na casaca, por lá a prevenir que eu lhe fugisse.
– Afasta me mim as unhas, que me deves respeito – atirei-lhe.
Ele recolheu a mão e eu, pegando no varal que deixara encostado à parede, mandei uma verduada no macho que deu dois saltos e se pôs em fuga, e arrumei um encontrão ao Gusto, mandando-o a terra. Corri rua abaixo a rabo do macho, com o meu genro em perseguição. Deixei a rua e saltei para um quintal e dali para uma tapada e, mais além, para um lameiro junto à ribeira, que ia alta com a farta água das chuvas. O valdevinos vinha na minha cola, já quase a filar-me, quando formei um salto para o meio da ribeira. Nadei um pouco e, já perto da outra margem, olhei para trás e lá vi o rapazola na borda da água.
– Anda, molha o capote – desafiei-o.
Não foi capaz disso, e eu saí da água e embrenhei-me num matagal.
Fiquei encharcado e sujeito ao reumatismo, mas garanto-lhes que aquele basófias nunca me pegou nem me tomou qualquer fardo.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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Vários historiadores, possivelmente deslumbrados com os resplendores culturais da alta latinidade e depois impressionandos com o desmantelamento do império, apodam a Idade Média de noite milenária da cultura.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAquele período durou efecitvamente à volta de mil anos. Mas só poderá classificá-lo de noite cultural quem não queira conhecer o papel naquele sector prosseguido peIa Igreja, já directamente pelas suas próprias instituições; já incitando e apoiando realizações dos monarcas e grandes senhores.
Nas igrejas paroquiais, juntamente com as verdades da fé, aprendiam-se rudimentos de leitura, escrita e aritmética.
Nas capitulares, assim chamadas por funcionarem junto dos capítulos (nós hoje chamamos-lhes cabidos, com o que significamos corpos de cónegos de uma diocese), ensinavá-se o trivium e o quadrium, embrião dos actuais cursos de letras e ciências, compreendendo o primeiro a retórica, a gramática e a dialéctica, espraiando-se o segundo pela matemática, geometria, astronomia e música.
Depois, não pode esquecer-se a obra dos mosteiros, tanto na salvaguarda e recuperação das riquezas culturais da antiguidade, como na elevação do nível intelectual das populações.
Muitos conventos ostentavam até atraentes dísticos, convidando à alfabetização: «se queres aprender a ler, entra, que tens aqui – e de graça – o que procuras».
Não falaremos da Universidade, também naquele período surgida e instituição que, só de per si, relevaria todas as eventuais faltas que à Idade Média se pudessem assacar.
Nos domínios da produção artística, o Te Deum, aparecido ainda no primeiro milénio, bastaria igualmente.
Raras vezes, o espírito humano tem voado tão alto como naquele admiravel texto, onde da forma mais elevada se exprimem as três dominantes da alma cristã: a alegria do triunfo, a angústia perante o futuro sempre incerto e a imorredoira confiança em Deus.
«Nós Te louvamos, Senhor; nós Te confessamos. A Terra inteira Te venera, e os Anjos e os Arcanjos, os Principados e as Potestades, os Tronos e as Dominações. O corpo glorioso dos Apóstolos, na sequência dos Profetas, e o branco exército dos Mártires cantam em conjunto a Tua glória. E, por toda a Terra, a Igreja é confessada…
Senhor, só em Ti está a nossa confiança. Nós Te glorificamos pelos seculos dos seculos. Que a nossa súplica seja ouvida e que o nosso clamor chegue até Ti. Senhor, está connosco. Fica com a nossa alma…»
Texto sem autor identificado, atribuído por uns a Santo Ambrósio, por outros a Santo Agostinho, por outros a um obscuro prelado dos confins balcânicos, ressaiba a epopeia jamais ultrapassada.
E, se o Te Deum, simboIizando e expressando, embora, todo um milénio, se pode considerar ainda urna obra isolada, produto apenas duma mente genial, naturalmente muito acima do seu século, há já movimentos culturais que interessam senão multidões, ao menos a importantes massas populacionais.
O mais conhecido é, por certo, o Renascimento Carolíngio.
Achen, nome germânico de Aix-La-Chapelle, à francesa, ou Aquisgrano, à latina, a cidade das águas correntes, funcionou como a capital não só política e militar, mas também científica, de todo aquele extenso período em que Carlos Magno, São Carlos Magna, se revelou o primeiro dos chefes da cristandade e também o primeiro cristão.
A Escola Palatina, sediada na antiga vila do tempo de Pepino, o Breve, viu passar pelas suas cátedras, todos os grandes espíritos da época.
Ali, à sua volta, Carlos Magno, como verdadeiro precursor da Europa do espírito, reuniu tudo o que contava nos domínios da cultura, dos sábios, dos letrados, dos teólogos. Da Gália do Sul, vieram Agobardo e Teodulfo, este último refugiado godo das Espanhas. Da Inglaterra, Alcuino, porventura o mais brilhante de todos os grandes paladinos e primeiro-ministro espiritual do próprio Imperador. Da Italia, Paulo Diacono, Pedro de Pisa e Paulino da Aquileia. Da Irlanda, Clemente e Dungal. Dos países nordicos, Engilberto e Eginhardo, este também notável.
Onde quer que os seus esculcas intelectuais lhes apontassem urn nome célebre, Carlos Magno mandava recrutá-lo.
A todos retribuindo principescamente, mesmo no sentido rigoroso do termo, pois ao já referido Engilberto casou-o com sua filha…
Com menos brilho, embora, outras escoIas funcionaram também, nomeadamente, em Tours.
E, mesmo que na sombra, lançavam-se as bases para o grande renascimento que adviria logo no princípio da idade moderna e que só foi possivel porque os centros culturais da época precedente (que se teima em cIassificar de obscura) se mantiveram vigilantes e operosos.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

JOAQUIM SAPINHO

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