Por estes dias, em que a chuva resolveu aparecer, dando a esta primavera uma tonalidade mais cinzenta e cumprindo o ditado de que, «Abril águas mil», tenho pensado, em como em Portugal, ninguém estabelece um plano de acção. Ninguém planifica. Ninguém estabelece objectivos e caminhos para lá chegar. Os partidos, arrastam uma indefinição ideológica e, mesmo com programas políticos (ou pseudopolíticos), estes são feitos em função das circunstâncias. Carecem de uma matriz identitária e de identidade.

Esta ideia vem a propósito das jornadas parlamentares do PS, que decorreram em Bragança, primeiro e, depois, a prática governativa deste governo do PSD.
António José Seguro, líder do PS, discursava e apregoava para os seus deputados de que este governo estava a ignorar o interior. Fiquei pasmado! Então não foi o PS que foi fechando escolas, centros de saúde, estações dos correios? Ah! Mas antes estavam no governo. Agora, como já não estão, volta o discurso do interior. Serve como exemplo de um discurso feito em função das circunstâncias.
Depois, comparem o discurso do primeiro-ministro agora e do candidato a primeiro-ministro antes. Palavras como «não aumentamos impostos», «não serão pedidos mais sacrifícios aos que menos têm», são palavras que depressa o vento levou. O que prova que os programas e os discursos são vazios. As ideias inexistentes.
Esta semana trouxe ao de cima a verdade crua e nua do acordo de concertação social. É mau e, como tal, provocou alterações na lei laboral más. E mesmo assim, o governo não o está a cumprir. Guardei a cara de espantado do secretário-geral da UGT… O ministro da economia apresentou esta semana a nova proposta do governo para o valor da indeminização aos trabalhadores por despedimento, 7 a 13 dias por cada ano de trabalho. Argumentos: para ficarmos enquadrados com a média da União Europeia. Exactamente como os alemães, já que ganhamos exactamente o mesmo! Brilhante este ministro. Outro argumento, que existe um estudo que aponta nesse sentido. Claro que faltava cá o estudo! Há sempre um estudo! Mas nunca se sabe quem o fez, onde está, quem o encomendou. Tal e qual como os estudos do Sr. George, director eterno geral da saúde, contra o tabaco. E, por fim, o argumento da troika. Sempre a troika, como costas grandes para impor restrições aos mais fracos. A mesma troika exige o corte nas rendas das PPP’s, mas aqui só se ouvem palavras vãs. Esta prática de governar, negando tudo o que se disse, prejudica a democracia porque, essencialmente, afasta as pessoas da política e, principalmente, dos partidos. E os portugueses têm-no mostrado em cada acto eleitoral.
O primeiro pacto ou acordo que os políticos e os partidos têm que fazer com o eleitorado é o da confiança. É esta confiança o suporte da prática política e do funcionamento da democracia e das suas instituições. Mas para isso, como disse, é necessário a existência de uma matriz ideológica que seja identitária e, por isso, identifique.
O panorama nacional mostra, e demonstra, um arco político ideologicamente errante, politicamente vazio e eticamente duvidoso.
Podemos dizer, diz-me se estás no poder ou na oposição e eu direi quem és.

P.S. Esta semana o FMI emitiu um relatório, onde aponta que Portugal, depois da intervenção da troika, terá muitas dificuldades em relançar a economia. Nada de novo, basta seguir o rumo das políticas seguidas pelo governo. Mas o que admira é que, a base de muitas das políticas, são do próprio FMI! Mais, o FMI faz parte da troika! Esta troika não está cá, supostamente, para nos salvar? Este relatório é o reconhecimento próprio fracasso.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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