De flores, note. Não «das» flores: Festa de Flores. Assim se designava dantes a Páscoa. Não é só no Casteleiro. É em muitas terras onde as flores desempenhavam um papel de alívio dos rigores do inverno (que este ano, por acaso, ainda continuam).

Acho piada ao preciosismo popular da designação: Festa de Flores. Coloca a Primavera no centro da festa. Junta à tradição religiosa algo de mais primitivo, mais antigo, mais sensorial: o calendário da Natureza. Falemos de apelo ancestral, para simplificar.
As cerimónias religiosas seguiam o seu curso diário, com uma cerimónia em cada dia do final da Semana Santa, de que recordo alguns momentos mais fortes: na quinta à noite era o lava-pés (o padre lavava os pés aos homens – para mostrar humildade); na sexta às 15 deixava de se ouvir o sino (que só badalava no sábado às 10); no sábado, lá voltava o sino, o dia todo; no domingo era a procissão das flores, com tapetes pelas ruas em locais habituais; na segunda era a Visita Pascal, o Folar, as Boas-Festas do Pároco a cada casa.
A verdade é que as flores estavam sempre presentes, no centro de tudo: até os altares da igreja ficavam ornamentados a valer por essa altura e o pagamento do folar ia também envolvido em pétalas de flores.

Outras terras fazem das flores uma festa de Páscoa.
Dois ou três exemplos mais conhecidos.

As cerejeiras estão em flor e são celebradas em muitas terras por esta altura. Por estar aqui bem perto, falemos do Fundão, onde tradicionalmente se promove a gastronomia e se preparam passeios às encostas da cereja em flor nestes fins-de-semana antes e depois da Páscoa. O mesmo acontece em Alfândega, Resende e outras terras. Isso, antes da feta da cereja, que será lá para Junho.
Há alguns dias ainda se celebravam as amendoeiras em flor em muitas terras, este ano com atraso devido a seca: isso costuma acontecer logo em Fevereiro.
Em Constância e no Sardoal não se desiste da festa das flores, e ainda este ano se prepararam os tapetes de flores nas capelas, para festejar a Páscoa.

E em Quadrazais também havia flores na Páscoa. Aliás, no «Capeia», faz agora quatro anos, Pinharanda Gomes falou mesmo, no texto, que não em título, de «Festa de Flores», também. Acaso ou rigor de reposição da linguagem popular – a verdade é que escreveu isso: de flores.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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