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Havia no meu tempo de galfarrote a tradição do enganchar, que era uma espécie de contrata, feita a dois, entre a malta nova para ver quem primeiro mandava o outro rezar no domingo de Páscoa. O que perdesse tinha de dar ao enganchado um ou mais ovos tingidos, consoante a combina.

Durante o tempo da Quarentena seguíamos com o devido rigor os preceitos da fé: jejuns, abstinências, proibição de tocar o sino e dar gaitadas em pífaros ou bordoada em tambores. Para os afazeres da religião ninguém bulia no sino da igreja nem no da capela de Santa Bárbara. Chamavam-se os fiéis à oração e à penitência agitando uma matraca de madeira, que tinha pregadas umas argolas de ferro.
Era um tempo amonado, por mor da amargurada sina de Nosso Senhor, que padeceu por nós ao ser cravado num madeiro. A rapaziada não assobiava nem quadrava prosmas, não soavam os zagueiros dos moços casadouros a chamar as conversadas. De cantorias, só as tristes litânias, ladainhas ou martírios, que os da ronda, noite alta, entoavam pelas ruas da aldeia. Mas andar na ronda era somente para os da confraria dos solteiros, que excluía os mais novos.
Pois na tarde de sábado, véspera da Festa das Flores, a canalha enganchava-se.
Cada um escolhia um parceiro, e os dois, ligando os dedos mindinhos, diziam a prosma da praxe: «enganchar, enganchar / até ao dia do folar / nesse dia te mandarei rezar». Ficava assim apostado que aquele que no dia de Páscoa primeiro mandasse rezar o outro recebia um folar.
Aquele trato, a que noutras terras por onde andei lhe chamam aconchavar, era por nós levado a preceito, pois cada uma tudo fazia para ganhar àquele, ou àqueles, com quem tinha apostado. Escondíamo-nos atrás das paredes e dos carros de vacas, ou seguíamos amagados entre as mulheres, a ver se surpreendíamos o nosso enganchado para, quando à roda ele, lhe atirarmos: Reza! O folar estava ganho e normalmente consistia num ovo cozido tingido. Havia ganapos que tinham tal arte para se alapardar que, apostando com muitos amigos, enchiam de ovos os bolsos da véstia.
Eu, e não digo isto para me gabar, estava entre os cachopos mais finórios da minha criação, e o dia de Páscoa era mim um maná de ovos, ganhos no aconchavo com os amigos.
Pois lhes conto que num dos anos, enquanto esperávamos no adro pela hora da desobriga, contratei com praticamente toda a galfarrada da terra que andava chegante à minha idade. E olhem que, naquele tempo, a aldeia estava cagulada de garotos.
Ciente que tinha apostado forte, empenhei-me em passar a perna a toda aquela malta, engendrando um plano atiradiço. No domingo da Ressurreição, um pouco antes da hora da missa, introduzi-me atrás do altar de talha dourada, pelo desvão por onde o sacristão passava para acender os círios que ladeavam o sacrário. Entrava-se por uma porta falsa e subia-se uma escada muito apertada, que foi onde me quedei a observar, com mil cuidados, a chegada dos meus amigos. Era uso que os pinches de mais tenra idade ficassem à frente, entre o padre e as mulheres, sentados em meia dúzia de bancos corridos. Já os homens ficavam ao fundo da nave ou iam para o coro, assistindo à missa lá do alto.
Do meu agachiz fui-os vendo chegar, na ânsia de que se juntassem todos antes do início da eucaristia. Eles lá foram abancando, mas o raio é que tardava o Quim Brigas. Entrementes, o padre, acompanhado dos acólitos, irrompeu direito ao altar e as mulheres desataram em cantorias. E o Quim Brigas não havia modo de chegar… Soube depois que o lambaças, esperava por mim à porta da igreja, para me mandar rezar. A missa iniciou-se e eu de aguardo, pois bem sabia que o zagal teria de tomar assento entre os demais.
Ao fim de certo tempo, já com a cerimónia avançada, chegou finalmente o Quim, que se apressou a tomar um lugar entre os outros. Era a minha vez. Abstraído do cerimonial, saí do altar, qual anjinho empalhado, e gritei apontando a toda a cáfila reunida: Rezai!
Foi uma escândula. O padre quis logo botar-me a luva, mas consegui esgueirar-me, fintando também o sacristão, que me saiu ao caminho. Alcancei a porta da sacristia e daí galguei para fora da igreja, esgueirando-me para casa.
Não tardou que meu pai viesse por mim e, por mais que eu galreasse que não tornaria a repetir a rambóia, ele tosou-me o corpo e levou-me de torna à missa dependurado pelas orelhas.
Levei-as a valer, que bem as senti no corpo, mas garanto-lhes que não deixei de cobrar cada um dos folares que ganhei, enchendo uma boa cesta de ovos tingidos.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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Hoje fala-se da Europa das Regiões. Ao tempo da sua construção e nos mil anos que se seguiram, era a Europa das Monarquias.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaO primeiro reino a estabiIizar-se na nova ordem e que ha-de durar milenio e meio (os historiadores falam dos quarenta reis que em tão dilatado período a erigiram) foi a França.
A grande gesta começa no baptismo de Clovis por outros chamado Clodoveus, trazido à fé de Cristã por São Remígio, arcebispo de Reims, cidade ainda hoje célebre pela sua catedral.
Carlos Magno, São Luís, Filipe o Belo, Luis XIV, Luis XVI, Napoleao, Luis XVII!, os cristãos e os hereges, os momentos de grandeza e de desânimo, tudo ali se filia.
Aliás, Clodoveus como Caros Magno, mais do que cabouqueiros da simples França foram-no de todoss os estados da Europa Central, nomeadamente da Alemanha, da Bélgica, da Holanda, do Luxemburgo… De resto, ao tempo, as fronteiras mantinham-se imprecisas e a Germânia simbolizava toda uma vasta região.
Clotilde, a santa mulher de Clovis, era uma princesa burgunda. Pois a Burgundia estava dividida em dois reinos, com capitais, respectivamente, em Viena e Genebra.
A vocação cristã da França, na bela imagem de Lacordaire ou o seu génio do Cristianismo, para se usar o título devido a Lamartine, como toda a Gesta Dei per Francos, radica efectivamente naquela cerimónia batismal.
Na Inglaterra e nos extremos ultimos da Germania, onde a cristianizacão foi obra de monges, só corn a instituição de monarquias cristãs, os povos ganharam dimensão nacional
Tal como a Península Escandinava se moldou politicamente através das suas monarquias.
O mesmo sucedeu para além dos limites do Imperio. Partindo de Hamburgo, os missionários aportaram à Escandinavia, cristianizada por reis que foram santos ou receberam nomes de profunda influência religiosa: Cristiano tornou-se comum entre os membros da casa real da Dinamarca, Suecia ou Noruega, persistindo ainda nos nossos dias, ao lado de Olavo, este a radicar mesrna em monarca elevado à dignidade dos altares. A Boémia, que por longos anos foi monarquia independente, deve-se a dois grandes missionários, tambem eles canonizados, São Cirilo e São Metódio… O mesmo sucedeu à Morávia e à Po1ónia, ao Montenegro e à Servia, à Bulgária e à Ucrânia… De resto, os nomes mais em voga naquelas regiões rememoram os monarcas que delas fizeram reinos: Boris, Vladimiro, Estêvão, Venceslau, Simeão, de parceria corn as variantes lacais de João e José – nomes bíblicos – e Carlos ou Alexandre – nomes heróicos…
O mosaico de estados tem variado profundamente, excepções feitas a Portugal e a França, secularmente estabilizados.
A Rússia, a Alemanha e a Jugoslavia testificam-no. Na primeira, cabem mais de cem nacionalidades e mesmo só na sua dimensao europeia, canatos e reinos abundaram. Na Alemanha, há quatrocentas familias que descendem de reis de outros tantas paises. O drama jugoslavo é por demais conhecido.
A nós, interessa-nos, sobretudo, o que se passou aquém Pirinéus, onde passaram os vândalos, deixaram sólidos vestígios os suevos e se fixaram os visigodos.
Aqui, depois de uma autêntica guerra religiosa que atirava uns contra os outros os próprios membros da familia real, dá-se a conversão de Recaredo.
E, como acontecera em toda a parte, a conversão do soberano e das mais altas figuras do Reino ao catoIicismo, terá também na Espanha consequêcias decisivas.
Começa a fusã das raças, a unificação do direito, a criacão dum verdadeiro espírito nacional, temperado embora pelo cristianismo de sua essência universal.
A fé com efeito tudo domina. E até os reis, para o serem, precisam de um novo sacramenta, a unção.
Toledo torna-se o simbolo da nova realidade e da nova realeza. Os seus concílios volvem-se permanentemente fonte de direito e de aperfeiçoamento da fé e dos costumes.
E ao monarca passou mesmo a chamar-se oitavo sacramento da nação.
De Recaredo a Rodrigo, morto nas margens do Crissus, ante a invasão berbera, há uma notável pleíade.
E, quando das furnas cantábricas emergir o levantamento contra o árabe que a traição de uns e a cupidez de outros permitiu se instalasse na Península, são ainda descendentes de Recaredo quem dá o grito de insurreição, comanda a guerrilha e obtém as primeiras vitórias que, todavia, só se consumarão quando Gonçalo de Córdova, às ordens de Fernando e Isabel, outros dois descendentes de Recaredo, expulsar de Granada, Boabdil, descendente de Mafoma.
Mas, aquém e além Pirinéus, os Monarcas reconhecem, mesmo que, contra a vontade, o primado espiritual e até institucional da Igreja.
Não é outro o significado da coroação, através do cerimonial da sagração.
O monarca, para o ser (e assim sucedia entre os francos e os visigodos, os celtas e os britânicos), tinha de receber a unção da parte dum legado pontifício, em regra o bispo do local.
Este submisso ajoelhar de quem tudo passa a mandar, com direito de vida e morte até sob os súbditos e como dono único das riquezas que podia dar e confiscar, ante um prelado tantas vezes obscuro, simbolizava bem que no seu mosaico de reinos a Europa se afirmava como unidade espiritual.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

JOAQUIM SAPINHO

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