Vivemos o Tempo Quaresmal. O espaço de preparação para a Grande, a Maior Festa da Igreja – A Ressurreição de Jesus Cristo. S. Paulo, numa das suas Cartas, avisa-nos que «se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação e vã a nossa fé…».

Regresso às minhas memórias e recordo as manifestações e vivências desses Tempos Quaresmais e Pascais. Viviam-se, com total participação, as Procissões dos Passos, os Jejuns e Abstinências, as Músicas e os Cânticos Quaresmais. Havia também um respeito pelo silêncio, retirando-se o barulho aos sinos e saíam para a rua as matracas. Sentia-se e respirava-se a religiosidade.
Com a dinâmica, liderança, força, fé e sentido de missão do Pároco da minha aldeia (Bismula), o Padre Ezequiel Augusto Marcos, nunca mais esqueci a Via Crucis, onde toda a comunidade bismulense participou. Foi a melhor lição de Catequese que vivi. A Via Sacra era uma oração diária durante a Quaresma, com a participação ativa do pároco, dos movimentos da catequese, da ação católica, da irmandade e outros.
Hoje, na maioria das Paróquias, esta oração é uma efeméride longínqua e quase desconhecida, embora em todas as nossas igrejas estejam bem expressas as imagens ou retratos do Caminho do Calvário de Jesus Cristo. Sei que o analfabetismo religioso é grande e muitos não sabem o que representam aqueles quadros. Neste deserto de indiferença, salvaguardo o Agrupamento 1335, do CNE, de Aldeia de Joanes, que por iniciativa própria, vai organizar uma oração de Via Sacra, nesta comunidade paroquial, um ato e exceção única, que será na noite de 4 de Abril.
Neste Caminho do Gólgota, muitos fogem ou se escondem, mas também muitos ficam e o seguem, com olhos de fé na construção dos projetos de Deus, no projeto da sua salvação.
Com estes últimos, vou caminhar e partilhar a Via Sacra, parando e refletindo em cada uma das catorze estações.
Na primeira estação – Jesus é condenado à Morte – seria importante que cada um de nós O visse e corrigisse a injustiça do seu Julgamento. Muitos cristãos, ainda hoje, pela sua fé, são condenados à morte.
Na segunda estação – Jesus toma a Cruz aos Ombros – vejo a vida de muitos cristãos, que suportam a cruz do desemprego, da exclusão social, das incompreensões, das perseguições, dos ultrajes, e outras tropelias.
Na terceira estação – Jesus cai pela Primeira Vez – sinto as quedas que todos nós damos e assim verificamos as nossas fragilidades humanas. Quem cai é alguém que desfalece, não deve ficar sozinho.
Na quarta estação – Jesus encontra sua Mãe – lembrei-me da minha lição de Domingo, na Catequese, «Ele é o Senhor da Vida», e da oração de S. Maximiliano Kolbe: «Mãe Santíssima, por vosso amor, eu me ofereço neste duro cárcere de Auschwitz, mesmo que aos outros seja concedido voltarem para casa. Permanecerei esquecido e desposado a sofrer por Vós. Ofereço-me a Vós, Maria, para que encontre a morte neste campo de concentração no meio de homens hostis e indiferentes.»
Na quinta estação – Jesus é ajudado por Simão de Cirene – apercebi-me que é difícil partilhar, dar e disponibilizar as nossas vidas ao serviço dos outros, dos que precisam. Lembro muitos que praticam o voluntariado nos hospitais, nas cadeias ou nos lares, vejo Simões de Cirene, anónimos em muitas instituições, na sociedade.
Na sexta estação – Verónica enxuga o Rosto de Jesus – lembrei-me daqueles que limpam as lágrimas dos doentes de oncologia em estado terminal, que já não dispõem de forças para as limpar… São Rostos de Cristos Vivos.
Na sétima estação – Jesus cai pela segunda vez – muitos ficam indiferentes perante a segunda queda do seu próximo, é sempre um problema dos outros, não lhes diz respeito, alguns ainda se riem…
Na oitava estação – Jesus encontra as Mulheres de Jerusalém – recordei o sonho de Martin Luther King: «Sonho que um dia os homens se vão levantar e compreender que foram feitos para viverem como irmãos. Sonho que a justiça correrá como a água. Os homens irão transformar as espadas em arados e as lanças em foices. As estrelas da manhã cantarão em maravilhosos coros, e os filhos de Deus, gritarão de alegria.»
Na nona estação – Jesus cai pela terceira vez – urge olhar para a fraqueza humana.
Na décima estação – Jesus é despojado das suas Vestes – vemos como O Senhor sofreu todos estes vexames por amor, por nosso amor, para nos fazer santos, para nos redimir.
Na décima primeira estação – Jesus é pregado na Cruz – aprendemos a não alimentar o ódio no nosso coração contra aqueles que nos ofendem, porque todos nós temos defeitos. Aprendamos a força do perdão, que apregoamos e rezamos na oração do Pai Nosso.
Na décima segunda estação – Jesus Morre na Cruz – rasgam-se os véus de uma vida inútil, sem sentido, sem partilha, sem comunhão.
Na décima terceira estação – Jesus é descido da Cruz – pedi as palavras de S. João «se um grão de trigo caído na terra, não morrer, fica sozinho. Mas, se morrer, dá muito fruto.»
Na décima quarta estação – Jesus é colocada no sepulcro – recordei também o Evangelista S. João, quando Jesus diz: «EU SOU A RESSURREIÇÃO E A VIDA; QUEM ACREDITA EM MIM, AINDA QUE VENHA A MORRER, VIVERÁ.»

Desejo a todos os meus leitores uma Páscoa de fé na ressurreição de Jesus Cristo.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

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