Sempre considerei que a capeia era a actividade que envolvia toda a comunidade, directa ou indirectamente. A capeia arraiana tem sido contada, estudada, fotografada, filmada, noticiada… mas penso que sempre faltou um estudo centrado numa perspectiva mais sociológica e até antropológica. Obviamente, que não pretende esta crónica sê-lo! Mas, aproveito este início de época das capeias, agora que a capeia é património nacional cultural imaterial, para analisar o anúncio que a inventaria.

O documento apresenta as razões que levaram a comissão a considerar a capeia património. E neles, estão alguns aspectos que sustentam a minha ideia. A primeira é que ela é «identitária e de ancoragem territorial». Identitária porque identifica, não só os que são das aldeias onde se realizam mas, também, os de todo o concelho. Territorial porque, sendo de uma parte, ela é regional, enquanto concelho. É esta identidade e identificação com a capeia que, praticamente, nos torna gente com uma matriz social e cultural única. Mas importa verificar que, o anuncio, aponta dois pontos que me parecem os mais relevantes, «a produção e reprodução efectivas que caracterizam esta manifestação do património cultural na actualidade, devendo ser salientado o papel de mobilização social e de reforço identitário que esta prática cultural desempenha no interior da respectiva comunidade» e «a efectiva transmissão intergeracional desta manifestação». Relevantes, porque a capeia é um fenómeno aglutinador e dinamizador. A realização da capeia é um trabalho que envolve toda a comunidade. É verdade que são responsáveis os mordomos (e não serão estes mordomos os herdeiros daqueles, que as cartas de foral autorizavam os «vizinhos» (habitantes) dos concelhos a escolher como recolectores de impostos(?!), mas no momento em que são nomeados, toda a comunidade o é. È preciso escolher os touros, fechar a praça, tapar os caminhos do encerro, andar com o rol, cortar e fazer o forcão… todo este trabalho é feito pela comunidade, por todos. E reparem que, mesmo o esperar o touro e afoliá-lo é uma actividade que envolve todos. A capeia é, efectivamente, um polo de mobilização social. Junta todos e, aqui, não só os da comunidade que a organiza, mas toda um região.
O outro ponto que me parece relevante, é o facto de a capeia ainda ser um fenómeno de transmissão intergeracional. Numa altura em que, por motivos que aqui agora não importa desenvolver, os saberes, os sabores e, portanto, muitas tradições se perdem porque não têm um veículo de transmissão às gerações seguintes, a capeia, ainda, repito, ainda, é uma tradição que se vai transmitindo às gerações futuras. E aqui, reforço, porque ela é uma tradição identitária e que não pertence a nenhuma elite, a nenhum grupo, mas porque é de todos.
Ora, o facto de a capeia ter sido considerada património cultural imaterial nacional, não representa um prémio, no sentido de nos terem dado um rebuçado, mas representa um acrescentar de responsabilidade. Já não é só nossa, partilhamo-la com todo o país. Contudo, é a nós, arraianos dessas aldeias, e sabugalenses, que compete a tarefa de a preservar, manter, divulgar e, essencialmente, transmiti-la às gerações futuras. È esta a principal tarefa e ninguém se pode excluir, porque seria negar a sua própria identidade.
Oxalá saibamos ser dignos da consideração com que nos distinguem a herança que recebemos.
Ó forcão rapazes!

P.S. Desejo a todos uma santa e óptima Páscoa.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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