Como o leitor(a) sabe, as deslocalizações de que tanto se fala nestes tempos, mas já são coisa antiga, têm a ver com a mudança das empresas e fábricas dos países ricos, para países e regiões economicamente deprimidos, com leis laborais imorais e injustas para os trabalhadores, com salários miseráveis e sem direitos sindicais.

António EmidioNa Europa e nos estados Unidos, a Mundialização Neoliberal está a destruir cada vez mais postos de trabalho. Quase a diários se lê na comunicação social a deslocalização de mais uma fábrica de um país europeu, ou dos estados Unidos, para um país emergente, a China ou o México, onde o custo da mão-de-obra é 25 a 30 vezes inferior. Presentemente já nem o sector dos serviços está a salvo de deslocalizações.
Sendo assim, os produtos feitos no Ocidente, já não são capazes de competir com os produtos chineses ou sul coreanos, porque aí os salários e outras regalias dos trabalhadores são muito inferiores. As empresas entretanto vão deslocalizando as suas fábricas para Oriente, China, Coreia do Sul, Vietname e índia, entre outros países, originando com isso desemprego, principalmente nos trabalhadores menos qualificados. No oriente, pelo contrário, a procura de mão-de-obra é abundante, sendo o desemprego quase residual. Ficamos então a saber, que para certos países subirem o seu nível de vida, o caso dos emergentes, outros terão de o diminuir, os europeus e os Estados Unidos.
Será possível homogeneizar os salários dos trabalhadores europeus com os dos Chineses e de outros países emergentes? Há quem diga que é impossível, mas eu já não digo nada…Na Alemanha, onde sempre se pagaram bons salários, está a acontecer o seguinte. Vinte por cento dos empregados ganham um máximo de 400 euros mensais, esta foi uma das soluções que Ângela Merkel deu ainda a Rodriguez Zapatero, enquanto primeiro-ministro espanhol, para diminuir o desemprego. Ferraz da Costa, numa entrevista foi bem claro ao dizer que Portugal tem de baixar nos salários drasticamente. O prémio Nobel da economia que ainda há bem pouco tempo esteve em Portugal, o senhor Krugman, a soldo das grandes fortunas e dos políticos neoliberais do governo, foi avisando do mesmo, é preciso baixar nos salários. Sendo a Alemanha a «impulsionadora» da actual União Europeia, não nos podemos admirar das exigências que ela faz ao resto dos países em matéria laboral e salarial, perca de direitos e redução de salários.
É esta concorrência com os países emergentes e a deslocalização das empresas do Ocidente para Oriente, que está a fazer regredir muitas das conquistas dos trabalhadores conseguidas num espaço de séculos. Dizem os sacrossantos doutores da lei que é preferível produzir bens intensivos com mão-de-obra pouco qualificada, nos lugares onde ela seja abundante e barata e, produzir bens sofisticados que requeiram tecnologia, nos sítios onde nascem as novas tecnologias. Nenhum país regateia o preço que lhe pedirem quando procura tecnologia, portanto esta não se deslocaliza, na medida em que quem trabalha nela pode receber salários elevados. A Globalização Neoliberal protege os trabalhadores qualificados e é uma grande inimiga dos não qualificados, isto está a desestabilizar sociedades porque aumenta ainda mais a divisão entre ricos e pobres.
A Globalização Neoliberal quer construir o chamado Homem «Mundial», totalmente vazio de cultura e individualista ao extremo, adaptado ás ordens anónimas dos mercados, trabalhando e pensando unicamente para eles. Continuar neste caminho não tem sentido.

A União Europeia também é um espaço económico com vinte sete estados e com vinte sete níveis salariais diferentes. Criou um espaço económico que faz competir trabalhadores europeus contra trabalhadores europeus a ver quem vende mais barato o seu esforço. Os Estados também andam a competir uns com os outros a ver qual baixa mais os impostos ás empresas para se instalarem no seu território. Isto origina a redução dos recursos do Estado para gasto público social ( saúde, educação, pensões, etc) e o deterioro das condições laborais.
Termino dizendo que os que mais ganham com a exploração de quem trabalha, são os que conseguem escapar ás autoridades fiscais dos seus países – ou até há conivência com elas – , presume-se que um trilião de euros!!! Saem desta idílica União Europeia para paraísos fiscais. Até eu, vivendo num país periférico, numa região periférica deprimida económica e socialmente, me apercebo destas coisas…

«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

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