Há / havia ou não uma rede imensa de estradas romanas principais que se cruzaram em Caria (uma seguindo para Belmonte, outra para o Sabugal) e uma bifurcação de estradas secundárias no Casteleiro (uma seguindo para Sortelha e outra para o Sabugal)?

A minha opinião é que sim. E, quanto mais investigo, mais me convenço disso. Se não, vejam-se os traçados estudados por especialistas e acompanhe-se a coisa no mapa ou na cabeça onde temos gravados todos os mapas destas terras.
Refiro neste artigo uma série de itinerários que inevitavelmente batem todos em Caria e um deles no Casteleiro, como adiante se verá. E veja aí em baixo que relação tem tudo isto com um certo elefante que por aqui passou há 250 anos.
Sei que ninguém vai ter a pachorra de ler estas linhas com atenção – mas ficam aí para estudo e referenciação posterior…
Falo então de itinerários romanos, mesmo sem as aspas nas palavras latinas.

Troço 1 – De Castelo Branco à Capinha
Alcains, Vale da Vinha, Lardosa, Soalheira (calçada), Castelo Novo (calçada junto ao Chafariz D. João V), Alpedrinha (calçada para Alcongosta com 190m, parte do Largo D. João V e segue para Portela, passando debaixo do túnel da Gardunha no IP2 e Capela de S. Sebastião), Valverde (segue por Ínsuas e alto da Esparrela), Moinhos sobre a ribeira de Meimoa, Capinha.

Troço 2 – De Peroviseu até Caria
Capinha, Peroviseu (o Museu do Fundão guarda o Terminus Augustalis aqui encontrado que demarcava a divisão territorial entre os Igaeditani e os Lancienses), continuava para norte pela calçada de S. Marcos, calçada de Ferrarias e calçada da Lameira do Forno/Vale Feitoso), Ferro, Peraboa (onde entroncava na Via Braga-Mérida), Caria.

Troço 3 – Bifurcação – De Caria ao Sabugal, pelo Anascer e Vale da Sra. da Póvoa
Salgueiro (em Coito de Cima/Vale do Canto apareceu um miliário a Licínio que está hoje no Museu Arqueológico do Fundão; este miliário indicia a passagem da via ao longo da margem direita da ribeira de Meimoa, passando entre Qta. da Malta e a Villa da Qta. Prado Vasco, na outra margem, e próximo da Qta. do Lameirão e Coito de Cima, onde se achou o miliário), travessia da ribeira do Casteleiro (junto da Villa do Casal de José Francisco do Anascer; seguia paralela à ribeira de Vale de Lobo no sopé de Sortelha Velha), Vale da Sra. da Póvoa (antiga Vale de Lobo; villa e provável mansio no sopé da Serra da Opa; possível capital dos LANCIENSES OPPIDANI; 3 miliários na Serra do Lobo/Opa), Santo Estevão (vicus e provável mutatio na Tapada de Sta. Maria; miliário de St. Estevão/Mosteiros/Serra do Mosteiro a Tácito indicando a milha VII, CIL II 4638, talvez contadas a partir do rio Côa em Sabugal que seria assim o limite territorial entre civitas, apareceu na desaparecida Capela de Santa Maria e hoje está em exposição no Museu do Sabugal), Alagoas, Aldeia de Santo António (miliário de Alagoas com inscrição apagada, mas que poderia indicar a milha 4 por estar a 3 milhas do miliário de St. Estevão que indica 7 milhas; passou pelo largo da aldeia e hoje está no Museu do Sabugal; segue por Amiais, onde há calçada), Sabugal (ver os miliários de Alagoas e de St. Estevão no Museu do Sabugal), Ponte Romano(?)-Medieval do Sabugal sobre o rio Côa, Sabugal.
Tudo isto e muito mais pode ser analisado em pormenor aqui, em «Vias Romanas».
Diz-se aqui também que Caria pode ter sido cruzamento de vias romanas principais: a que de Mérida ia até à Idanha e a que da Covilhã ia até ao Vale de Lobo (Vale da Senhora da Póvoa e dali para as Alagoas e o Sabugal.

Troço 4 – Outra opção / Bifurcação – de Caria a Sortelha pela Ribeira da Cal e Casteleiro
O que hoje aí fica é um passo adiante relativamente ao que escrevi antes. E vale a pena rememorar para Tudo isto para uma clarificação relativamente à tese que venho defendendo de há uns bons tempos a esta parte: na «Rota do Elefante» há que incluir o Casteleiro. Apenas para isso. O resto é curiosidade intelectual.
Defendo que, se o elefante seguiu as pistas romanas, se da Idanha veio a Sortelha, então veio por Castelo Novo até Caria, daí até à Ribeira da Cal e Casteleiro, subindo daí pela meia encosta da Serra da Vila (aquilo que hoje é marcado como Calçada Romana, mas que poderá ser medieval, segundo alguns), até Sortelha. É o único caminho lógico.
É que «há exactamente dois anos, Saramago refez a viagem e passou por estas zonas, desde Castelo Novo a Sortelha: ia para Figueira de Castelo Rodrigo, mas, antes, quis revisitar Sortelha. Mas ninguém o esclareceu sobre a inevitabilidade de a viagem ter de passar pelo Casteleiro.
Pode ler isso aqui.
Mas eram muitas as vias que cruzavam o império do fulgor romano.
Da Covilhã seguia outra estrada romana para Belmonte.

Outra opção: Covilhã-Belmonte
Da Covilhã podia seguir-se a travessia do Rio Zêzere (Cambas?, Ourondo?), mas a partir de Paul já é possível traçar um itinerário que ia entroncar na Via Braga-Mérida,
Taliscas, Erada, Ourondinho, Tortosendo, Canhoso, Terlamonte, Teixoso, Orjais, Aldeia do Souto, Vale Formoso, entroncando na via Braga-Mérida em Belmonte.

Quem quiser pode acompanhar alguns itinerários e monumentos na «Georreferenciação do Google Maps, aqui. Mas não é simples. Só que vale a pena tentar e voltar a tentar.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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