Nos meus afazeres de azemel calhava-me, de quando em vez, rumar à Covilhã onde entregava fazendas a meia dúzia de bons fregueses. O percurso levava-me pelo Casteleiro e pela Quinta de Santo Amaro, em cujas terras medravam as melhores melancias que alguma vez comi e que eram o mimo da minha canalha quando era Verão pleno e chegava a casa carrejando melancias que pesavam para cima de uma arroba.

Numa dessas ocasiões, estando já de regresso a casa, cheguei ao Casteleiro pela hora do zénite, debaixo de um sol que chispava lume. Tinha a garganta ressequida, clamando por um gorcho de água ou de vinho. Na fé de que um copo de bom briol me cairia melhor no goto, estaquei defronte da taberna do Felisberto, meu velho amigo, que em tantas ocasiões me matou a fome a altas horas da noite, quando as lides do negócio me retardavam o andamento.
A tasca, que ficava numa loja térrea, ao desnível do chão da estrada, estava pejada de gente que ali buscava a fresquidão, pois a résca convidava à lazeira. Alguns dessedentavam-se beberricando ao balcão, outros matavam o vício jogando às cartas e os mais simplesmente conversavam.
Ao entrar dei a salvação aos presentes e recebi um forte abraço do Felisberto. Serviu-me depois um copo de quartilho, que bebi de um golpe. Assentei o copo vazio no balcão e fiz-lhe sinal para de novo o atestar. Face à sede imensa que sentia cheguei de novo o copo aos lábios, deborcando-o também de um trago. A sofreguidão não passou desapercebida aos presentes e um deles largou a sua laracha:
– Calma, homem de Deus, não esvazie a pipa que nesta terra há mais quem beba.
Deu-se uma risada geral, o que me deixou fora do aprumo, pois não gosto de servir para farramalhas.
– Ao que sei o Felisberto tem as pipas atestadas e depois de me matar a secura que trago, ainda tem reserva cabonde para lhe atulhar o bandulho – disse-lhe em ar de mofa.
– Aqui não inçamos o bandulho de vinho, que não temos os usos da sua terra.
Mau, o farrabraz queria liquitrena.
– Atente que entornei pela goela dois pichorros por mor da sede, pois venho de jornada, e não por vício, como será o seu caso, que teme que a pinga se acabe.
– Tenha tento na língua, quando não rebento-lhe c’os ossos.
O homem foi longe demais. Ainda que estivesse em terra alheia, não podia deixar que me ferissem a dignidade e, à cautela, meti a mão no bolso a certificar-me se tinha a naifa a jeito.
Valeu a intervenção do Felisberto, que não queria contenda de portas adentro.
– Deixem-se de lérias, que estão em casa honrada.
O meu contentor, não se dando por achado, desafiou-me para irmos a meças.
– Se se estreve, venha lá para fora. Vamos tirar a limpo a coragem de que os arraianos se afamam.
Por brio aceitei a assovelada, não cuidando dos sinais do taberneiro para me manter quedo.
– Nunca me neguei a defender a honra. Vamos para a rua e aí veremos quem leva nas fuças.
Só cá fora, perante a clareza, notei o tamanho do homem que me desafiara. Era um vergalhudo de gâmbias altas, braços longos e grossos e umas mãos que pareciam garranchas. Era senhor de grande arcaboiço, com músculos retesados, a quererem rebentar a apertada camisa de riscado.
Eu, que me tinha por verguio, era porém de baixa estatura, um franganote comparado com o latagão que tinha pela frente. Mas não dei ares de cagote, que já virei de pantanas talabúrcios como aquele.
O calmeirão prantou-se no meio da rua, arremangando-se e puxando para fora o forro dos bolsos das calças. Falou com voz de trovão.
– Avance de mãos e bolsos sacudidos.
Botei fora a naifa e dispus-me a enfrentar a fera, fiado na minha genica. Teria que me desviar dos golpes daquele bastardo até encontrar o momento certo de lhe dar uma estocada que o derrubasse.
Já estávamos um defronte ao outro, de punhos cerrados e olhar atento, quando soou o vozeirão do Felisberto.
– Eh rapazes. Conheço a valentia de cada um e custa-me que dois varudos, bons chefes de família, se vão esfarraichar por efeito de um entremez. Se a defesa da honra vos obriga a compita, proponho-vos outra forma de medir forças.
– Deixa-te de lérias, Felisberto, que estou de culatra armada e tenho de descarregar umas murraças neste tratante que veio da raia a gozar c’os da terra.
Da minha parte permaneci quedo e caludo, ainda que atento aos movimentos do meu rival. E o Felisberto não desistia:
– Tenho a sorte de vos conhecer a ambos e sei que jogais bem ao ferro, pelo que podeis medir forças aventando com a barra.
O grandalhão, por lá notando o meu ar audaz, imaginou que não seria osso tão bom de roer e anteviu que a minha magreza, ainda que escondesse um homem com genica, me impedia de ser melhor lançador da barra do que ele, que era alto e musculado.
– Aceito o desafio, venha de lá a barra – disse o meu adversário.
Eu fiz também sinal de assentimento.
– Mas há uma condição – disse ainda o meu oponente – o perdedor paga um tonel de quatro almudes para toda esta gente.
O Felisberto ficou de ar radiante, face ao negócio que a ideia proporcionava, e o mesmo sucedeu com as demais pessoas que estavam no adjunto, que também assim beberiam de borla.
Um homem do povo, chegando-se junto de mim, aconselhou-me:
– Se quer acautelar a carteira, sujeite o corpo à luta, que na barra ninguém ganha ao Zé Churro.
Mantive porém o meu assentimento à proposta do taberneiro. Sempre era melhor levar um rombo na carteira do que chegar a casa de canastro partido e incapaz para o serviço. Ademais não era peco no lançamento do ferro, jogo que também praticava nas minhas horas de espairecimento.
Entrementes o Felisberto saiu da venda munido de uma barra de ferro do cumprimento de uma aguilhada, que lançou ao chão.
– Vamos a isto rapazes, que o pessoal tem sede e tenho de abrir o tonel. Cada qual atira de uma só vez, sem direito a experimentações nem a desforras.
Pegando numa moeda deitou â sorte a quem cabia fazer o primeiro arremesso. Calhou ao Zé Churro.
O grandalhão pegou na barra, fincou os pés com as biqueiras pegadas ao risco que o Felisberto traçara no solo e com o ferro seguro a meio, balançou-o duas vezes por baixo das carranchas e, soltando um urro, mandou-o para casa do diabo. Soou um ulular de admiração – o lafaruz era bom lançador.
O Felisberto mediu a distância.
– Trinta e quatro passos – disse quando chegou junto da barra, que apanhou do solo.
Já no ponto do lançamento, entregou-me o ferro. Era a primeira vez que lhe tocava, pesaria à volta de oito arráteis, um nada mais leve do que a barra com que se jogava nas terras da raia.
Tomei posição e alonguei o olhar pela estrada a imaginar onde cairia a barra. E disse bem alto:
– De quem são aqueles burros que estão presos a meio da rua?
Respondeu-me um homem que estava entre a assistência.
– São meus. Quere-os à troca do seu macho?
– Não, estou bem servido de montada. Antes quero que o amigo desvie os jumentos do caminho da barra, não vá o diabo tecê-las.
Ouviu-se uma surriada geral.
– Os burros estão a mais de cinquenta passos, mais seguros que a gente, não vá vossemecê deixar a barra escorregar das mãos porque parece não ter jeito para o engrimanço – disse-me o dono dos burros, com ar de mofa.
Tomei posição de pernas bem escanchadas e o ferro seguro a meio e pendendo como se fosse o cambo de uma balança. Oscilei-o meia dúzia de vezes até retesar os músculos e puxar com quanta força tinha, arremessando-o alto ao mesmo tempo que dava um impo.
A barra subiu quase à altura das casas e desceu depois continuando a trajectória, indo cair para lá da posição em que estavam os burros. Foi o assombro geral. Vencera o campeão da barra alcançando quase o dobro do seu serviço e conseguindo um feito nunca visto por estas terras. De viandante indesejável passei a herói por todos louvado e admirado. O Felisberto abriu o tonel e todos beberam à tripa forra, enquanto eu me esgueirava de soslaio, por temer o cair da noite e, sabe-se lá porquê, passar no Terreiro das Bruxas sob o negrume.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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