Numa semana em que se discute na Assembleia da República as alterações ao código do trabalho, proposto pelo Governo, a pergunta que me ocorre é… e se não houvesse trabalhadores?

O que teria sido, ou que seria, a Humanidade hoje, se não existissem trabalhadores? Provavelmente, não sairíamos do estado de recolectores.
Sempre que se fala em relações laborais existe uma espécie de preconceito em relação a uma das partes da relação laboral. Os trabalhadores são sempre vistos como uma espécie perigosa, arruaceira e, ironia, como não querendo trabalhar. Pode ser que esta imagem tenha surgido, e ainda perdure, na segunda metade do séc. XIX, quando os movimentos de trabalhadores, mais tarde sindicatos, começaram a reivindicar alguns direitos. É verdade. Houve lutas, e lutas na verdadeira acepção da palavra. As greves e manifestações desse tempo foram verdadeiros campos de batalha entre os trabalhadores e a polícia, enviada pelos governos, muitas vezes a pedido dos patrões. É por isso que, ainda persiste essa palavra de ordem de «a luta…». Se é esta a imagem que ainda perdura, volvidos cerca de século e meio depois, significa que a sociedade avançou muito pouco.
A relação laboral não é, e nunca pode ser, uma relação a um. São precisos dois. O patrão (ou empregador) e o trabalhador. É no equilíbrio da balança dos interesses de ambos, que pode haver harmonia na relação laboral.
Ora, assistimos, com esta proposta, a uma alteração intencional desta relação quando, se reporta mais poder para um dos lados. Sendo este um problema, não consigo entender o argumento de que, este agilizar de despedir, se transforme na mais valia de criar emprego! Preferia que, sem andar com palavras sonantes, falácias, rodriguinhos eviras, dissessem claramente que esta alteração ao código do trabalho, facilita o despedimento e, mais uma vez, vai aumentar o número dos desempregados. Ou alguém acredita que se vai despedir para se contratar?!
Os trabalhadores vão ficar mais fragilizados. Encaminhando-se a sociedade para um beco sem saída. O trabalho não pode ser encarado somente como lei, antes como um direito, como dizia Victor Hugo. Nós estamos a transformá-lo num favor. Numa caridade. É este o paradigma traçamos. Uma sociedade onde as pessoas serão um número e, submissas, pelo favor do seu trabalho, lhe darão o pão.
Dir-me-ão, o título da crónica também pode ser posto ao contrário, e se não houvesse patrões? Sem dúvida que sim. Respondo, pegando precisamente no conceito de relação. Continuo acreditar que não são os salários o óbice da nossa economia. Muitas vezes é a mediocridade dos nossos empresários que obstam a um maior progresso na nossa economia. A maioria dos nossos empresários, não se vêm como tal, mas sim como patrões e donos das empresas. Alinhando no quero posso e mando e, em que tudo o que entra é para o seu bolso.
É preciso alterar o paradigma, percebendo o ponto de partida (mesmo agora, nesta crise, seria uma boa oportunidade) para se saber onde se quer chegar. O que temo, é que esta alteração, seja o princípio de um recuo civilizacional.

P.S.1 Já repararam nos vários ataques a José Sócrates, agora que deixou de estar no poder? Não parece estranho que, só agora, venham todos estes ataques? Demonstra o quanto quem está lá em cima tem poder e em como todos os que gravitam à volta dele, depressa esquecem.
P.S.2 Uma palavra, para referir aqui, o meu lamento pela morte de António Tabuchi. Uma perda enorme para a literatura, em particular, e para a cultura portuguesa, em geral.

«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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