Procurarei com este texto, no Dia Mundial do Teatro, que acontece hoje, 27 de Março, prestar uma homenagem a todos aqueles que com o seu trabalho dinâmico, sabedoria, empenho e talento na arte de representar, que proporcionam tantos momentos culturais e emocionais a um público que os admira e respeita.

Viver é representar. Todos os homens escolhem as melhores máscaras e saltam para ao palco do teatro com engenhosas representações.
Shakespeare dizia que o mundo era um palco e Fernando Pessoa definia-se como uma cena viva representando diversos actores em diversas peças. Assim se explica a fome de teatro de todos os homens. A Vida é um Teatro. Experimentem, por exemplo, tirar todas as máscaras nos sectores políticos, religiosos, sociais e culturais, e, que outra consequência senão encontrar a morte? Com efeito, é o Teatro que torna as pessoas mais livres e permite a vida, ora autorizando verdades que, sem máscara, poucos ousariam dizer, ora dissimulando os nossos reais defeitos e possibilitando a sã convivência.
O teatro vem dos clássicos gregos, atravessa séculos de culturas e civilizações, passa pelo misticismo, pela farsa social, pelos testemunhos heróicos, religiosos e tantos outros. A sua importância é milenar. Nas tragédias gregas, por exemplo, as autoridades pagavam ao próprio público para as ir ver.
Quando Molière bateu três vezes com a sua bengala nas «tábuas da aristocracia francesa» do Século XVII, não imaginaria, por certo, que esses sons ecoariam numa aldeia portuguesa recôndita, situada no Planalto do Ribacôa, na alma do POVO anónimo Bismulense, a que com orgulho pertenço, e que escolheu para acontecer Teatro representado em diversos locais públicos: o Largo de Santa Bárbara, da Relva, da Praça, e quando o tempo ameaçava chuva no Salão, ao cimo da Rua do Forno.
Através de um conhecimento baseado na transmissão oral, nos princípios do Século XX já a Bismula fantasiava um jogo cénico com componentes militares e religiosas, envolvente ao Mártir São Sebastião, que já abordei num texto sobre a Irmandade com o mesmo nome, centenária e com irmãos espalhados por todas as freguesias do Concelho do Sabugal.
Com a nomeação do Padre Ezequiel Augusto Marcos para Pároco da Bismula e ali residente, as peças de Teatro levadas à cena atingiram o seu apogeu, contando com o apoio de dois colaboradores e encenadores: José Joaquim Fernandes e o seu parente José Maria Fernandes Monteiro, seguidos por um elenco de actores populares, que hoje envergonhariam muitas vedetas de pacotilha, que aparecem todos os dias nos ecrãs da televisão. Actores de grande talento como Joaquim Firmino, António e Joaquim Videira, Iberte Alves Ramos, José Augusto Vaz, Paulo Cardoso, José Maria Fernandes, Manuel José Fernandes, as Irmãs Faustina, Trindade e Inês Alves Mendes, Maria Bernardete Fernandes Lavajo, António Joaquim Lopes, Antero Leal, Francisco dos Santos Vaz, e tantos outros.
Esta plêiade de homens e mulheres levaram à cena, na Bismula e nalgumas freguesias limítrofes, peças de Teatro com a temática religiosa, histórica e alguma mitologia popular; no final havia sempre uma rábula cómica, que fazia rir o grande público. Para dar um ar festivo ao Teatro, muitas vezes este era abrilhantado por uma Banda de Música, que vinha da Freguesia da Malhada Sorda ou da Parada.
Lembro-me da apresentação das peças de S. Sebastião, «A Bandeira Roubada», «Santo Tarcísio», «Os Dois Jovens Cativos», «A Paixão de Jesus Cristo», «Restauração de Portugal», «O Amor Descoberto», «O Fim do Mundo»; nas peças mais cómicas apareceram «O Barbeiro de Sevilha», «Salsa e Parrilha» e outras que não tenho na memória.
Estas peças eram apresentadas com tanto realismo que numa peça, levada à cena no Largo da Relva, com o palco assente nas pedras do mercado (já desapareceu este património), um dos actores ficou com uma costela partida. Também não posso deixar de dar o meu testemunho pessoal. Na peça «A Bandeira Roubada», o meu pai é condenado à morte e com os meus seis anos comecei a chorar compulsivamente no meio dos espectadores, e só parei quando me agarrei ao pescoço do meu saudoso Pai – José Maria Fernandes Monteiro – e confirmei que estava vivo e não tinha sido morto.
Vivi esta e outras emoções que me acompanham até à morte. Devo-as ao Povo Actor, aos Homens e Mulheres Bismulenses.
HONRA, GLÓRIA E LOUVOR AOS ACTORES ANÓNIMOS BISMULENSES, CUJOS NOMES AINDA ESTÃO VIVOS NA MEMÓRIA DE TODOS AQUELES, QUE ASSISTIRAM A MARAVILHOSAS PEÇAS DE TEATRO.
A TODOS OS HOMENS DO TEATRO.
António Alves FernandesAldeia de Joanes

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