No Casteleiro, desde meados dos anos 50 e durante todos os anos 60 e 70, um complexo industrial desactivado, a que chamávamos «Os Italianos», serviu de centro de cultura popular. Nem sabíamos disso. Mas era lá que havia teatro, comediantes, circo, bailes, cinema.

Era um edifício esbranquiçado, com ar de fábrica abandonada, mas em muito bom estado de conservação.
Vale a pena descrevê-lo, antes de mais porque muita gente se lembra, mas também porque a maioria dos que me lêem nunca o viram: ou nunca foram ao Casteleiro ou tendo ido ou sendo de lá não têm idade para se lembrar.
Para quem já foi ou sabe onde fica a Casa da Esquila, o novo restaurante de marca, saiba que os Italianos eram aí mesmo, mas em frente, do outro lado da estrada, logo junto da curva.

O edifício
Era uma grande construção, bem sólida, mas já não era de pedra como era tradição no Casteleiro. Por exemplo: a igreja, construída também nos anos 40, é toda de pedra.
«Os Italianos» tinham sido construídos com tijolo burro (julgo que era isso) e o bloco fora todo rebocado com uma massa de cimento lisinha, pintada de quase branco e era enorme. Ou parecia enorme aos nossos olhos de miúdos.
O edifício foi demolido lá pelos anos 80, julgo, para dar lugar a habitações e comércio.
Da estrada ao edifício, um grande largo de uns 30 metros de profundidade e que corria ao longo de todo o edifício.
Antes da entrada, um telheiro alto, gigantesco.
A porta de entrada era larguíssima. Mas tinha três degraus – o que significa que não era para entrada de viaturas. Lá dentro, logo à entrada, um hall enorme com dois grandes blocos rectangulares altos e com o tijolo à vista. Tinham sido construídos para serem os fornos. Depois, para a direita de quem entrava o grande salão.
E, ao longo dessa sala grande, várias dependências, tudo em grande e com pé direito impressionantemente alto. Isso era uma imagem de marca da construção: o telhado ficava lá muito em cima… bem diferente das nossas casas: tipo dois ou três andares lá em cima. Era assim que eu via o edifício. Se calhar era só o meu olhar de criança a ampliar a coisa…

Os bailes
Do que mais nos lembramos é dos bailes. Enormes bailes de domingo. Toda a gente rodopiava naquele grande salão. De mim e dos meus amigos, só me lembro de andarmos a jogar à apanhada ou coisa assim por entre as pernas dos dançantes…

O cinema
O cinema que se via nesse tempo na aldeia ou era projectado numa parede da casa senhorial do Largo de São Francisco ou nos Italianos. Era cinema mudo ou lá perto, a preto e branco, naturalmente, e com histórias de amor em profundidade e muitas lágrimas.

O Delfim
Outro frequente utilizador era o comediante Delfim e a sua «troupe»: Delfim Pedro Paixão – bem me lembro do nome dele e da sua companheira e restante equipa de «actores» de rua. Muito nos ríamos com as suas brincadeiras ingénuas. Quando a mulher era viva, havia trapézio e tudo (acho que morreu de uma queda).

Volfrâmio
Já escrevi em tempos na Capeia que havia (há) volfrâmio no Casteleiro e que houve muita exploração de minérios na minha terra. Pois bem: «Os Italianos» são fruto dessa euforia. Dois italianos, irmãos, vieram para cá, instalaram-se e iam começar o seu negócio. Investiram, portanto. Ali seria uma fábrica separadora de minérios. Mas não chegaram a tirar rendimento: logo, logo, a Itália é derrotada e o negócio italiano e alemão dos minérios em causa acabou. O edifício lá ficou, entregue ao meu avô, que acabaria por aceder à propriedade 30 anos depois por usucapião: os dois italianos nunca mais deram sinais de vida. Tanto quanto se sabia na época, teriam fugido para a Argentina. Mas até hoje, nem um telefonema…
O Casteleiro ficou assim com um equipamento inesperado, que bem utilizado foi durante duas décadas. Foi o primeiro centro de cultura – mas sempre houve teatro no verdadeiro Centro (na imagem) e num recinto junto do Largo de São Francisco.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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