Toda a minha vida aconteceu de volta com a bicheza doméstica. Tinha na corte o macho, meu velho e fiel companheiro, a burranca, que era a montada da mulher e da canalha, e a junta das vacas – duas jarmelistas de alma, preadas para o trabalho, capazes de arrancar com uma carrada da mais funda ravina e de andar sem parar, de sol a sol, na decrua de uma tapada.

No cortelho mandava o marrano, cuja vida era ressonar e emborcar viandas à espera da hora da matança. Na coelheira havia sempre laparotes prontos para o panelo e no poleiro habitavam as pitas e o seu galaró reinante. Já cadelos e gatos eram gado de livre andar, correndo a rua e os cantos da casa. Cheguei a ter toirão, no tempo em que corria os montes para apanhar os saltantes bravos nas luras.
As galinhas eram do cuido da minha patroa, que nisso fazia grande preparo, no fito de ter fartura de ovos e boa criação de frangas. No poleiro havia sempre um bom galo pedrês, daqueles que têm crista alta e esporão alçado, e que guardam o bando das galinhas tal qual um cão cuida de uma piara de ovelhas. A minha esmerava-se nisso, querendo ter galaró altivo e vigilante e ademais capaz de dar bom canto para anunciar a hora do levanto.
Pois numa manhã, pelo tempo dos Santos, a Rosa do Lucas empurrou o cancelo do curral, de coisa feita em nos agraciar uma gulodice da matança e entabular paleio. Entrou confiante e dava passos apressados, já dentro da cerca, quando foi surpreendida pelo malvado galo pedrês que, largando as pitas, cresceu para ela de penas eriçadas. A Rosa ainda lhe tentou mandar um biqueiro que o fizesse desandar, mas, não lhe atinando, o cantador embraveceu e desatou a picar-lhe nas pernas.
– Ai, quem me acode! – urrou a desventurada mulher que foi cambaleando sem encontrar onde se abrigar do feroz lutador.
A Belmira, ao ouvir a balbúrdia, saiu de casa com o razão do alqueire em punho e arrumou no galo uma traulitada que o fez desandar.
– Mas que galo mais bravio aqui tem no curral! Capaz de me matar, o alma de seiscentos! – lamentou-se a Rosa quando se viu a salvo.
– É levado da breca, não lhe posso abrir o poleiro! Não tarda que vá pró panelo.
– É pior que um cão! Não viesse vomecê e dava-me cabo das pernas. Isto é que é um guarda!
– Isso é, Ti Rosa. Ninguém é senhor de aqui entrar, basta ele dar fé!
– Assim precisava eu dum, que me guardasse as galinhas da raposa – aventou a Rosa do Lucas já melhor refeita da escaramuça.
– Inda por isso é que tenho dó dele – concordou a minha – há dias fez daqui esgueirar o cão do Mourão, que cá vinha ao fairo dos ovos. Não há melhano capaz de tocar num pito, nem vagabundo que meta pé pra dentro do curral sem ter que tornar em correria, basta que ele ande à solta. Até de noite é vigilante! Sinta raposa ou lobo ao redor dos casais que dá logo sinal.
– Dá-lhe um jeitão, Ti Rosa, dá-lhe um jeitão! Tem a casa resguardada!
A mulher do Lucas, que há muito não punha pé em nossa casa, largou ao que vinha. Trazia a prova da matança, um pedaço de soventre e duas morcelas, que a minha recebeu por obrigação, pois seria mau agradecimento rejeitar o que a generosidade nos trazia a casa.
O diabo é que a Rosa, que tem uma língua de palmo, espalhou pelo povo que o curral do Tosca era local a evitar, por ali ter de guarda um galo selvagem que ninguém domava.
Foi a minha sorte, porque há coisas que nos vêm ao calhar. Primeiro fiquei danado com a boca laburda da mulher, mas depois tomei fé de que o galo era cobiçado para padreador e passámos a receber no nosso poleiro as pitas das demais pessoas de Bismula e até de gente de outras terras, que as queriam galadas pelo cantante bravo para depois as porem no choco. A Belmira fez com isso uma dinheirama a que no final adiu a nota de conto resultante da venda do famoso galo a um freguês da Rapoula que ali veio de propósito para o comprar e fazer dele senhor de uma grande capoeira que produzia pitos, galinhas e ovos para os mercados.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

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