A produção de vinho – de bom vinho – é no Casteleiro uma arte secular, se não mesmo milenar, meus amigos. Querem aprender? Leiam esta peça até ao fim.

No dia 4 de Março, realizou-se um Festival em que mais um vinho do Casteleiro foi premiado, como pode ler aqui. E o mesmo já acontecera há um ano. Parabéns aos amigos produtores.
«O vinho branco produzido pelo José Joaquim Nabais do Casteleiro, alcançou o 1º lugar da sua classe (Terras Quentes) no II Festival Graminês organizado pelo Jornal “Cinco Quinas”».
«Já na primeira edição, em 2011, a dupla José Manuel Gonçalves/Carlos Gonçalves tinham conquistado o 2º lugar na categoria de tintos».

A vindima era uma festa
Não haverá ninguém dos que me estão a ler que não saiba (muitos, muito melhor do que eu) como se faz toda a faina do vinho, do cultivo da videira à venda de parte e ingestão de outra parte do próprio vinho.
Plantar videiras, tratar delas, acarinhar toda a sua vida, podar com sabedoria – coisa que poucos sabem fazer mesmo a sério, são faces de uma só moeda: fazer bom vinho.
Lá por Outubro, cavavam-se as vides (era assim que se falava).
Depois, no inverno, era o tempo de dar toda a tenção à bicharada que pode estragar as videiras e os botões que vão dar os cachos de uvas.
Lembro-me de ouvir falar do míldio e do oídio. Devem ser verdadeiras pragas, para me lembrar tão bem de palavrões tão estranhos…
A seguir à Primavera, podavam-se. Uma arte que poucos dominavam.
Depois, até à vindima, não se toca mais na planta: só para colher as uvas.
É a vindima: uma festa na aldeia, por toda a aldeia, em cada casa.

Fabricar o vinho
A uva era colhida para cestos, daí ia para a dorna e daí para o lagar, se fosse o caso. Podia ser esmagada na dorna ou no lagar.
Sempre com os pés descalços – e bem lavados, espera-se.
Em todo o caso, o vinho depois disso ferve e limpa tudo.
O que sobra é o engaço.
Se se quiser tirar algum mosto, é esta a altura: antes de ferver. Mesmo antes.
Depois ficava a ferver uns dias e finalmente era metido nos pipos ou nas pipas, dependendo da quantidade: era a estrafega, penso.
Assim ficava, bem vedado na vasilha por umas semanas.
Mas:
No dia de São Martinho,
Vai à adega e prova o vinho.

Regra sagrada. Milenar, talvez, já que o nosso vinho deve ter vindo da Grécia para Roma há quase 7 mil anos e de Roma para aqui há quase dois mil.
Uma parte, se fosse o caso, vendia-se.
O resto ficava para consumo em todo o ano.
Nada melhor, para os apreciadores.
Já há mais de dois séculos a abundância de vinho no Casteleiro era referida, a par de outras produções: «(Resposta nº) 15- Os frutos que nesta terra se colhem em maior abundância são centeio vinho e azeite castanha e linho, mas esta maior abundância apenas…a terras fortes» – isto escreveu o Cura Manuel Pires Leal no seu Relatório para o Marquês de Pombal em 1758.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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