Era uma mulher franzina, de estatura meã, com uma alma grande. Era uma mulher que cedo ficou viúva e mãe de cinco filhos. Perante esta situação civil e social viu-se a braços com a criação de tão grande prole, se compararmos com os dias de hoje, em que um dos motivos principais para o deficit da natalidade são os aspectos económicos das famílias, e nem o poder político nem a Igreja se preocupam muito com isso.

Era uma das mulheres mais idosas de Aldeia de Joanes. Mulher rija como o aço, com uma força assente no granito e hercúlea, deitando as mãos ao leme familiar. O barco era o trabalho duro no campo, ali e acolá. Era necessário ter alguns cêntimos para alimentar os filhos. O local de trabalho incerto e contratos por umas horas ou dias no amanho de umas plantações, no cultivo de terrenos agrícolas. Há pessoas que se cruzam na nossa vida que nunca mais esquecemos. A Senhora Celeste ficou na nossa memória e dos meus filhos, que a tratavam como mais uma avó. Alma simples, qual Teresa de Calcutá, bondosa, sempre risonha, transmitia felicidade. Hoje já não sorrimos, já não nos cumprimentamos, andamos tristonhos, sempre muito ocupados com o nada, muito cheios de serviço, boa desculpa para nada se fazer, para os outros serem as nossas bengalas, com o medo que ainda nos venham exigir ou cobrar qualquer imposto. É melhor fingir que não nos vemos… Podem vir a chatear-nos a pedir um conselho, uma ajuda. O melhor é fugir…
A Senhora Celeste ensinou-me muito. Não sabia ler nem escrever mas tinha o Curso Superior de Ciências Humanas na Universidade da Vida. Quando às vezes um filho nosso fazia alguma asneira, lá estava a apara raios da Senhora Celeste. Além da dedicação ao trabalho, amava os nossos filhos, amava as pessoas.
Com os filhos na diáspora, ainda passou alguns tempos nos Estados Unidos e na França. Antes de apanhar o avião, o que lhe criou imensa confusão, procurei explicar-lhe que era o transporte mais seguro do mundo.
Numa tarde quente de Fevereiro recebo a notícia da sua morte quando me dirigia para a Capital. Acompanhava-me o meu filho mais novo, e saíram-lhe dos seus olhos umas lágrimas dolorosas e sentidas.
Algumas vezes a visitei. Muitas vezes a passar pela estrada nacional Aldeia de Joanes – Telhado, no Largo de Santiago, ouvia a minha voz e trocávamos afectividades. Reconheço que da minha parte merecia mais visitas. Visitar os idosos é uma obrigação cívica e moral.
A Senhora Celeste, nome maravilhoso, nome que se enquadra no pensamento religioso, é uma grande alma, e sempre que as suas forças lhe permitiam nunca faltou às suas obrigações.
A Senhora Celeste, esposa, mãe, viúva, trabalhadora rural, assalariada algumas vezes, ainda trabalhou nas limpezas das vias públicas, a cargo da Junta de Freguesia de Aldeia de Joanes.
São estas mulheres portuguesas, simples, anónimas, que construíram e constroem Portugal.
Foram estas mulheres que no tempo das Caravelas ou da Guerra do Ultramar foram a retaguarda do nosso patriotismo. Relembro Fernando Pessoa: «Ó Mar Salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal, quantas mães choraram…»
Sei que alguns fariseus, quais sepulcros caiados de branco ou de vermelho, se interrogam, «mas este vem com esta crónica, com esta conversa, a falar de uma mulher que quase ninguém conhece». Ora, foi no ambiente destas mulheres que nasci, cresci e me alicercei como HOMEM. Foi lá que vi, num meio rural, como aqui, mulheres com as ferramentas e a informática da época: o berço de madeira, a enxada, a foice, o arado, o sacho, a cesta da merenda às costas, quase vazia, a ida aos cartórios civis ou religiosos, a serem recebidas, muitas vezes, como pessoas de segunda ou terceira classe, como acontecia nos comboios, enquanto muitos desses fariseus assentavam o traseiro nos cafés, nas poltronas, nos camarotes das ficções, nas mesas das honrarias, nas mesinhas com toalhas de rendas a tomar o chá das cinco, que o da manhã já lá foi, a receber e a comer o prato de lentilhas.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes