A sabedoria contida nos ditados populares continua a impressionar-me. Está bem: são frases que vêm de experiência de séculos. Uma síntese quase sempre expressa de um modo um tanto poético ainda por cima. Dado o clima que se instalou, vem a propósito recordar a impressionante sabedoria popular nesta matéria.

É óbvio que todos estão agora mesmo à espera de que eu comece pelo mais actual de todos: Em Abril, águas mil. Este ano, quem dera.
Logo, logo, uma nota inicial: os ditados que vai ler não são todos locais nem sequer regionais. Alguns deles, tenho-os encontrado noutras partes do País. Sinal de miscenização, também por aí, de certo.
No Casteleiro, estas coisas pesam ou pelo menos pesavam muito no dia-a-dia das pessoas. E por isso fazem parte de toda a nossa formação. Quiséssemos ou não, este «quadro filosófico» estava ali sempre presente – para o bem e para o mal.
Na maior parte dos casos, estes ditados apelam para vivências hoje muito distantes e mesmo desconhecidas dos mais jovens ou já transformadas em reminiscências. Mas ainda se lá vai, com alguma pequena explicação de alguém mais velho – e muitas tenho pedido ao longo de anos de registo dessas coisas por aqui e por ali…
Aliás, o que directamente motivou o conteúdo desta crónica, foi a meteorologia (uma palavra muito difícil de dizer na televisão, onde ninguém tem a caridade de explicar àquelas alminhas a coisa mais simples: vem de meteoro e não de metro).
Mas falo da meteorologia de cariz popular, claro.
Tudo, fruto de conversas recentes em roda de vizinhos nos últimos tempos. Porque não chove, mas ainda pode chover. Então não sabe daquele ditado?… E há pouco tempo não choveu tanto em Agosto?
Coisas assim. Simples. Como a vida. Quando fora do «stress» da cidade.
Do lado da meteorologia científica, vale a pesquisa recente de Ricardo Garcia, ‘Público’, quando afirma que houve arrefecimento em Portugal de 1940 a 70 e que desde então as épocas de seca são cada vez mais frequentes.
E isso é de facto preocupante.

Espantosa meteorologia popular
O célebre meteorologista Costa Alves, oriundo de Castelo Branco, até escreveu uma compilação de ditados populares sobre o tempo e a atmosfera – e garante que mais de 90% são verdadeiros.
Portanto, vale a pena perder uns minutos a recordar alguns nessa e noutras áreas.
É que, como são parte da tradição oral, se ninguém os registar, «bye-bye».
É verdade que não chove.
Mas é verdade que ainda pode vir a chover.
A experiência de séculos aponta nesse sentido.
Parece que ultimamente as coisas andam muito diferentes na atmosfera, fruto sabe-se lá de quantas alterações, a começar pela poluição mortífera que por aí anda.
Mas mesmo assim, vale a pena trazer aqui sem intenção «noticiosa» que
Uma velha em Abril
Queimou um carro e um carril
Uma camba que lhe sobrou
Para Maio a guardou
E um bocado que lhe sobrou como um punho
Ainda o guardou para Junho.

Janeiro e Fevereiro já passaram.
Mas sobre Março há aquela:
Março, marçagão,
De manhã, inverno
E à tarde, verão.

Já em meados de 2011 escrevi sobre estes ditados. Eles fascinam-me.
Hoje trago-os aqui por causa do clima que temos neste momento.
Isto não garante que este ano vai chover nas manhãs de Março. Mas garante que já aconteceu muitas vezes. Naquela previsão popular, este «inverno» não seria só frio, julgo eu: havia de trazer também a sua dose de chuva.

Apelo ao leitor
Toda a gente me diz que há muitos mais rifões populares na região sobre estes meses até ao Verão. Então fica aqui um desafio: quem souber algum, por favor, sirva-se e deixe-nos aqui em comentário esse contributo. Agradecemos todos.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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