Sempre fui de boas contas para com Deus. Ainda que tenha faltas em barda, não conto com pecado mortal no meu rol, e se algumas maldades pratiquei isso adveio da precisão, e de certo merecerão indulto. Mas afianço-lhes que nunca tive boa relação com o nosso pároco, que para além de galifão era um machacaz de primeira água.

Numa manhã, no tempo das moscas brancas, empinei-me antes de cantar o galo pedrês, emborquei uma bucha, mandei as unhas ao varapau e segui ladeira abaixo de tino feito nas moitas do Pereiro, onde armara os laços.
Lá estava uma lebre, já tesa pela geada, que meti no bornal. Volvi a casa e arrimei-me às labutas da vida. Empalhei o vivo, dei a beberagem às vacas, ordenhei-as e cortei lenha para o lume.
Manhã alta, peguei na sacola com a lebrota e fui a casa do nosso prior, o padre Narciso, a quem entreguei a peça de caça, por paga de uma missa que há dias rezara por alma de quem lá tenho.
O raio do padre, por lá pensando que nada tinha para fazer, entreteve-me no paleio: como andam a Ti Belmira mai-los catraios? Como está o negócio das fazendas? Quando prestas contas do peditório para a Irmandade?… O padrola não tinha forma de pôr cabo ao interrogatório. E a pressa que eu tinha, por mor dos meus afazeres!
Farto do falatório, tive que lhe pôr freio:
– Peço-lhe perdão, Senhor Abade, mas tenho que rodar à lide…
– Vais a Espanha contrabandear? Toma tino e amanha outra forma de vida.
Olhei-o de soslaio, percebendo agora o porquê de tanta lábia.
– E como ganhava a vida? Metia-me na ladroagem?
– Há outros afazeres mais dignos aos olhos de Nosso Senhor, que andar ao contrário do que ditam as leis – respondeu-me o padre Narciso.
– Não me calhou estudar no seminário para depois ganhar o pão em sermões e cantorias, como sucede com Vossa Mercê…
O que fui dizer! Ficou vermelho que nem uma tomata e botou-me um olhar severo.
– Devias ter tento na língua José. Ao abade guarda-se-lhe respeito, que ele é o ministro de Deus na terra e tem por missão pastorear uma piara de homens, cuja guarda é bem mais secultosa do que conduzir cabras pelo campo.
– Não se queixe da vida que Vossa Reverência tem a arca cheia de mimos.
O padre, que já bufava, intimou-me a explicar-lhe quais eram os regalos que ele tinha de portas adentro, alegando que vivia mais pobre que São Francisco de Assis e chagado como Job por amor aos paroquianos. Ainda me tentei desviar da contenda, mas, face à insistência, vomitei o que ele não quereria ouvir.
– Vossa Reverência ainda agora acaba de ensacar uma lebre que eu lhe trouxe! Ontem recebeu duas dúzias de ovos da mão da Ti Felismina, anteontem arrecadou um corgalho de chouriças da Ti Isabel do Adro e transanteontem recolheu uma talega de centeio e um alqueire de feijão que aqui lhe trouxe o Ti Judas. É sempre a ensacar, em paga das cantorias que alanzoa na igreja e nos funerais, das absolvições no confessionário e das extremas-unções com que azucrina os moribundos. Tem, a par do mestre-escola, o melhor modo de vida cá da terra. Tivesse eu inclinação para os estudos e o meu pai alguma bagalhoça para untar as mãos de quem me metesse num seminário, que hoje também eu seria um senhor, e não precisava de andar a caminho de Espanha pela noite adentro a arriscar o courato e a aguentar a frialdade enquanto os demais dormem a sono solto no quentinho da enxerga.
O padre ficou furibundo, prestes a excomungar-me.
– Devias estar caludo, lapuz. Olha que a vida do pároco é de extrema responsabilidade, e nunca este recebeu a justa paga daquilo que deu aos paroquianos. E a isto acresce o celibato e a castidade a que o sacerdote está obrigado, assim arredado dos prazeres carnais. E olha que não me meto, como tu, por essas terras de Espanha, onde há abegoarias e casas de pasto onde também se esfandegam mulheres de má vida.
– Precisa lá Vossa Mercê de ir a Espanha ou a outra terra, quando as frangas se lhe vêm meter debaixo da sotaina. Goza-as às ocultas, assim achavelhando os homens do povo…
Calei-me quando vi o padre empunhar a tranca e erguê-la para me desferir pancada. Fora longe de mais no meu paleio e achei por bem escapulir-me.
Foi deste modo que arranjei uma arrelia com o padre da minha terra, que se manteve por muitos anos. A mulher e os filhos lá iam à igreja e às demais obrigações. Já da minha parte, tido por valdevinos e amaldiçoado, mantive-me temente a Deus e respeitador da Madre Igreja, mas passei a ir à missa dominical e a desobrigar-me noutras terras, quando andava por fora na minha vida de azemel e contrabandista.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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