Conta-se que Arquimedes, estando no banho descobriu que, o volume de qualquer corpo, pode ser calculado medindo o volume de água movida quando o corpo é submergido. È o princípio de Arquimedes.

A palavra «eureka» é a primeira pessoa do singular do perfeito do indicativo do verbo heuriskein (encontrar), significa, portanto, encontrei. Usamo-la, hoje, como sinónimo de descoberta, de fim de busca.
Foi precisamente o que me ocorreu estes dias com as notícias que, diariamente, invadiam as nossas casas. Como podem estes iluminados da economia e finanças, virem, com aquele ar de virgens imaculadas, apregoar o seu espanto em relação à recessão, á falta de crescimento económico, ao aumento do desemprego e à fraca entrada de impostos nos cofres do estado?!
Cada dia vinha um qualquer (ou nem tanto) dizer da sua admiração por os números não coincidiam com as previsões estabelecidas. Bom, eram previsões, argumentam. Contudo, esse argumento não justifica o eureka com que nos brindam:
Seria impossível haver crescimento económico quando o consumo (a procura) diminui. Penso não ser necessário ser economista para perceber que o mercado (como eles gostam tanto de dizer!) funciona na base da procura e da oferta. Não havendo procura a própria oferta tende a diminuir. Exemplifiquemos da seguinte forma, uma empresa fabrica frigoríficos, se os consumidores não os comprarem, brevemente, a empresa reduzirá a produção, despedindo trabalhadores, que irão engrossar o grupo dos consumidores que não compra. Mais tarde a empresa fecha. Desta forma, o fenómeno vai engrossando, provocando o efeito bola de neve. Ora, esta crise foi provocada pelos economistas e financeiros que, na obscuridade dos gabinetes, especularam, mentiram, conspiraram e inventaram esta crise que, no final, lhes vai dar milhares de milhões de lucro. E, todavia, são estes mesmos que chamamos para resolver crise! Se a memória não me falha, creio ter sido Churchill, primeiro ministro britânico aquando da 2ª guerra mundial, que afirmou que a guerra era um assunto demasiado sério para ser deixada só aos militares. Também a economia. Os resultados estrão á vista.
Mas sobre estes espantos, dou mais dois exemplos, em que as previsões teriam que sair, necessariamente, furadas. Um, a receita fiscal está aquém do esperado. E os economistas da nossa praça ficam espantados! Se há cada vez menos gente a trabalhar, como se pode esperar receita fiscal igual ou superior à do ano passado? Sabendo-se que a economia paralela já era enorme, agora é estrondosa. Eu diria que, por este andar, a paralela é que parece ser a real… Outro, a facturação das scut’s. Juro, tenho uma curiosidade enorme de saber qual o resultado da colecta (para não lhe chamar chulice) que a cobragem de portagens deu. Porque a diferença entre o estimado e o valor real deve ser colossal. No final, nem a cobragem resolve o problema da divida às empresas concessionárias e o resultado será o definhar definitivo do interior. Quando o governo perceber que não tem país, será tarde. Por aqui haverá aldeias fantasmas e a única vida será a passagem do vento pelos campanários vazios… pois os sinos já os terão roubado!
Por estes dias esteve por cá um prémio Nobel da economia para ser doutorado honoris causa e logo por três universidades. Não sei se cobrou o «serviço» ou não, mas vi ser apresentado por um senhor que pensa exactamente o contrário. Enfim. Este senhor veio dizer que Portugal está no bom caminho mas que não garantia que resultasse toda esta austeridade. Bem, foi a minha vez de dizer eureka! Então o homem, um laureado nobel em economia, e não pode garantir se aquilo que estamos a fazer vai ter resultados!? Depois tem o desplante de dizer que os salários dos portugueses deviam ser cortados em 30% em relação aos dos alemães. Então para que serviu e para que serve a União Europeia? Não era para equilibrar os povos europeus no seu nível de vida? Apetece-me voltar aos frigoríficos, os alemães que os façam, se ninguém os comprar quero ver o que lhes fazem!
Quanto ao nobel da economia, confesso que tenho alguma dificuldade em perceber a sua importância. Todos os anos temos laureados e não vejo nenhuma teoria ou descoberta desta gente que venha facilitar a vida das pessoas ou permitir-lhes soluções. Por detrás desta crise estão muitas das teorias de laureados com o nobel da economia! A este que por cá esteve, gostava que lhe cortassem o salário, só para ouvir mais uma prelecção do iluminado.
O Sr. Primeiro Ministro cá do burgo, finalmente, encontrou a culpa do estado de Portugal! Foi o anterior governo. Eureka! Permita-me que lhe diga, não foi o anterior. Foram todos os anteriores. A começar no do Sr. Cavaco Silva. Porque nessa altura de vacas gordas, as reformas estruturais que tanto apregoa agora não foram feitas. Os milhões da Comunidade Europeia foram estruturar os bolsos de uns quantos e dos amigos. Agora, quando não há dinheiro, vem pedir que se faça o que ele não fez quando devia e podia. Mais, se não concorda com a linha política seguida pelo governo do seu próprio partido, não publique as leis. Use os instrumentos ao seu dispor e demonstre a sua discordância. Agora publicar as leis e, depois, dar entrevistas à imprensa estrangeira a dizer que não pode ser tanta austeridade soa a cobardia e hipocrisia.
O Sr. Primeiro Ministro pode acusar a herança, mas não deve com isso camuflar as suas opções políticas, nem diluir as suas decisões com o programa da troika. Procurando, desta forma, sacudir a água do capote.
Espero que, qualquer dia, alguém não nos venha dizer que estamos mais pobres, com esse ar de quem descobriu a realidade.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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