Ao ler este título, perguntam quem é esse Fatela? Aqueles que vivem em Aldeia de Joanes, Freguesia povoada pelos Templários e situada na Cova da Beira, conhecem-no.

O Fatela nasceu nesta Aldeia, um cidadão simples, humilde, católico praticante, que muito cedo começou a trabalhar. Aprendeu o ofício de saber lidar e tratar os móveis e aí gastou muitas das suas forças profissionais. Por motivos de saúde reformou-se prematuramente. De seguida tem o falecimento da esposa. Uma desgraça para os pobres nunca vem sozinha. Para afagar tantas dores envereda pelo consumo exagerado do álcool. Quem não tem um vício?
Ficou com a companhia da única filha, que se destacou durante seis anos como Catequista na Comunidade Paroquial de Aldeia de Joanes, levando dois grupos a fazer a Primeira Comunhão. Também foi evangelizadora na sua terra. As exigências da procura de uma profissão, de um emprego, como acontece a milhares de jovens do interior deste País, forçaram-na a emigrar para o litoral. O Pai, o Fatela, fica só. Fica nas paredes sombrias e frias da sua residência, tendo como companhia a Capelinha de Nossa Senhora do Amparo, de grande devoção para as gentes de Aldeia de Joanes, que em Agosto lhe fazem uma festa e lhe prestam reverência.
Ainda trabalhou numa empresa de venda de materiais de construção no Fundão, mas o tal vício obriga-o a abandonar aquelas actividades.
Também a Junta de Freguesia lhe deu trabalhos esporádicos de limpeza de caminhos vicinais e outros. Num desses trabalhos, com o seu companheiro a suar por todos os poros, chamei-o para lhes dar uma bebida refrescante. Quis um copo de vinho tinto em vez da cerveja fresquinha. Se todos nós bebêssemos vinho português, a nossa agricultura estaria bem melhor.
Foram muitos os encontros com o Fatela nos Cafés de Aldeia de Joanes. Era um homem de trato afável, delicado, não criava problemas a ninguém, apenas prejudicava a sua saúde e a sua reforma. Um dia, tive de fazer o papel de regedor dos costumes e não lhe autorizei que bebesse mais um copo de vinho, atendendo à medida já ultrapassada em todos os níveis possíveis, e fui levá-lo a casa. Este gesto cimentou mais a nossa empatia e estava sempre a relembrar-lhe que tudo na vida tem limites e muito mais limites aquilo que prejudica a nossa saúde.
No dia 15 de Fevereiro de 2012, num Lar situado na aldeia mais alta de Portugal, partiu para a vida eterna, na data em que fazia 61 anos de idade, indo festejá-los no Reino de Deus. No dia seguinte foi o funeral em Aldeia de Joanes.
Na Igreja Matriz, nas Cerimonias das Exéquias, o Povo cantava «Eu caminharei na presença do Senhor» e um elemento do Grupo Coral com uma voz celestial cantava que «O Senhor é a minha Luz e a minha Salvação». O Evangelho de S. Mateus apontava e iluminava: «vinde a Mim os que andais oprimidos, os humildes de coração».
O Celebrante teve o cuidado de mencionar o nome completo do defunto, o que é muito louvável. Irrita-me quando, por questões de crise ou austeridade, apenas mencionam um só nome. Desta vez foi bem pronunciada e sufragada a alma de António Salvado Afonso Fatela.
No funeral registou-se e notou-se a presença do elenco da Junta de Freguesia, o Presidente da Assembleia de Freguesia e todos os proprietários dos Cafés de Aldeia de Joanes, revelando que acima dos negócios há sentimentos, solidariedade e dor.
Estranhei a ausência de representação da parte dos Catequistas da Comunidade Paroquial de Aldeia de Joanes, mas os homens às vezes têm a memória curta.
Já o sol estava a esconder-se nesta tarde fria de Fevereiro quando o corpo do Fatela – António Salvado Afonso Fatela – desceu à terra, onde todos nós também desceremos.
Paz à sua alma…que descanse em Paz.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

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