Quando eu era pequeno, muita gente ainda plantava linho e procedia à sua fiação. E havia na aldeia alguns teares, que, imagino, seriam como o da imagem.
Quanto mais leio coisas de antigamente, mais me convenço de que, há 270 anos ou mais, havia aqui uma espécie de indústria artesanal nascente que foi vencida pelos tecidos indianos que entravam de roldão no Pais por essa altura. E a Coroa deve ter ajudado à festa.

Hoje, o material barato vem da China, sobretudo. Naquela altura, terá sido a Índia (Goa) a origem de tecidos muito mais baratos do que os que eram feitos cá ou mesmo os que vinham da Inglaterra, onde já se usava a mecanização para produzir…
Há na nossa zona uma tradição de fabrico ligada à fiação, tecelagem e tinturaria? Só pode ser. De outro modo, por que raio havia o Marquês de criar com pompa e circunstância bem perto de nós, na Covilhã, as tinturarias da Real Fábrica de Panos, uma manufactura do Estado, fundada pelo Marquês de Pombal em 1764?
Mas isso, reparem, é 16 anos depois da data daquilo que hoje aqui me traz.
De facto, em 1758, segundo o Padre da Paróquia do Casteleiro, o «tinte» já tinha sido demolido.

Dois pisões e um tinte
Fiação, tecelagem, pisoaria, tinturaria – uma fileira de produção essencial nas aldeias da era pré-industrialização.
Sabe-se hoje que o Casteleiro chegou a ter isto tudo.
Leia-se a propósito o que escreve o Padre, quando responde ao tal «Censo» do Marquês.
À pergunta 16 do capítulo III do questionário «O que se procura saber do rio dessa terra he o seguinte», o Cura Manuel Leal Pires responde: «Tem dentro do limite desta freguesia esta ribeira sete moinhos e três lagares de azeite, dois pizoins e algum dia teve também um tinte, porém hoje se acha demolido».
No que ora me interessa, atento nos «dois pizões» e «um tinte».
Pisão: espécie de moinho onde os tecidos eram batidos para ficarem muito compactados e por isso mais maleáveis (dentro do possível, com estes processos artesanais da época).
Tinte: palavra espanhola para pintura artificial (por exemplo, ainda hoje, «el tinte del cabello»). Era a palavra usada para as tinturarias artesanais que havia lá em muitas aldeias. E aqui também.
Concluímos que em 1758 a construção que tinha abrigado o tinte já não existia.
Mas existia bem viva a memória dessa unidade de «fabricação» local.
Por que terão acabado com a industriazinha da época?
Proibição da Coroa?
Isso aconteceu muito nos arredores de Lisboa, por exemplo, sob o pretexto de que já se produzia de mais e que o consumo nacional já não escoaria a produção… balelas para dizer antes que se protegiam os interesses ingleses – cuido eu.
Concorrência?
Sobre a hipótese de concorrência, chamo em meu auxílio o ensaio de Jorge Miguel Pedreira «Indústria e negócio: a estamparia da região de Lisboa, 1780-1880», onde afirma: «Na segunda metade do século XVII e principalmente no século XVIII, os panos de algodão estampados da Índia granjearam, pela sua leveza e pelo colorido dos seus padrões, a preferência dos consumidores europeus. Eram tecidos que podiam substituir com vantagem as sedas, tanto em artigos de vestuário como de decoração. A importação das «indiennes» e dos «calicots» cresceu consideravelmente e as Companhias das Índias Orientais começaram a organizar feitorias para reunirem esses produtos».
De qualquer modo, para mim fica também claro que estava tudo contra estas «artes» aldeãs e que o nascimento e desenvolvimento da indústria nacional de estamparia acabou por arrasar estas fabriquetas isoladas como o tinte do Casteleiro.
Hoje, deixou de haver o tal tinte.
Mas a palavra ficou lá.
Tinte é o nome que ainda hoje damos àquele local. Fica próximo da Ribeira, ao pé de Cantargalo, a caminho de Gralhais.

O trabalho num «tinte»
Fui procurar saber um pouco mais sobre o que se fazia e como nas tinturarias e depois nas estamparias do Reino.
Com o autor citado fiquei a saber coisas como:
– Era elevada a concentração de mão-de-obra no sector.
– Mas mão-de-obra feminina só no século seguinte (a partir de 1800 e tal).
– A indústria de estamparia, o sector em questão, era sem dúvida uma das mais importantes em finais do século XVIII e em 1881 era ainda, de vários pontos de vista,
um dos mais importantes ramos da indústria fabril.
– O trabalho era feito manualmente através da aplicação de tinta em blocos de madeira ou directamente sobre os tecidos.
– A branqueação dos tecidos continuava a ser feita pelo método tradicional da exposição ao sol, e não por processos químicos, obrigando os fabricantes a disporem de prados junto às oficinas, o que, naturalmente, encarecia a instalação e gerava problemas de localização. Este atraso tecnológico — que não é, no entanto, superior ao de outros sectores— seria extremamente duradouro. Só em 1847 é aplicada a primeira máquina de vapor, que permitiria finalmente a introdução das máquinas inglesas de imprimir a quatro cores.
– Em 1852, só duas fábricas usavam a energia do vapor e ainda em 1881 mais de 1/3 das unidades produtivas continuavam a estampar por processos manuais
.
No tinte, os tecidos eram antes de mais bem batidos com grandes barras de madeira, de modo a ficarem mais macios e talvez um pouco menos desconfortáveis. Depois eram então embebidos em tintas feitas na base de produtos da Natureza.
Os tecidos da época iriam desde o burel das capas de pastor e outras peças de vestuário e de agasalho (feitas de lã cardada) o bragal, a flanela e a chita até à estopa e ao linho.
E como eram tinturados? Que matéria-prima se usaria? Não sei, pelo que ainda consegui encontrar num estudo publicado na Revista de Ciências Agrárias, versão digital, 2007, não errarei muito se disser que na minha terra esses produtos seriam mais ou menos os seguintes: raízes de várias plantas, bem como as corolas de algumas flores, lírios, giestas (flor amarela) e urzes.

Protecção real
Pelo que leio, o Casteleiro – e certamente outras terras por aqui – terá mesmo sido precursor… É que na Covilhã e na região de Lisboa, por exemplo, só na segunda metade do século XVIII é que a indústria vingou, mas com a protecção do Marquês e da Coroa. Deve ter sido isso que cortou as vasas à industrialização, mesmo que mínima, da minha terra. E assim o «tinte» foi demolido e tudo voltou ao «ram-ram» do costume e as pessoas voltaram a comprar os seus tecidos aos vendedores ambulantes da época, talvez trocando-os por melancias e vinho. Digo eu. Mas lá que se manteve, isso manteve, a tradição de cultivar linho, proceder à sua fiação e fazer ou mandar fazer a respectiva tecelagem nos teares simples da aldeia
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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