Sentei-me silencioso. Aproximei-me de um rádio com a minha idade. Supus que ele me pudesse oferecer recordações. Precisava de alimentar a alma. Mas o velho rádio não colaborou. Propunha-se emitir músicas para além das que eu pretendia e, assim sendo, no preciso instante da sintonização, carreguei no off. Definitivamente, não encontrava o que procurava.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Olhei, então, pela janela quiçá buscando compensação exterior. A caixilharia substituída recortava a paisagem. Os caixilhos eram novos mas o formato da janela era antigo e os vidros eram muitos e pequenos. A janela, propriamente dita, essa, era muito mais velha que eu e do que o rádio que tinha a minha idade.
Vi, então. Vi montes de pedra e de verdura e vi outros montes esbranquiçados com a lonjura. Mais próximo vi campos. Não estranhei. Apenas estremeci perante a constatação, evidente, da mudança do mundo rural.
Só podia, então, meditar. Naveguei em pensamentos ainda que sem música de fundo.
E sim, ainda existia mundo! Mas mundo rural? Não tão rural quanto já o conheci. Seria, ao menos, agrícola? Nem por isso, concluí.
Já quase se extinguiram as imagens, já quase se calaram os sons, já se desvaneceram os personagens.
O silêncio apagou a sonorização desse mundo. Refiro-me aos sons (e até imagens) dos amanhos da terra, ao «traz traz» da enxada, ao batucar do malho, ao som surdo da marreta, às vozes de comando, às ordens dos lavradores (vira laranja, põe-te ao rego castanha, toma aqui galante). Perderam-se esses sons!
Ter-se-á perdido, definitivamente, esse vocabulário?
E os sons dos rebanhos e das cabradas, o ladrar dos cães? O que foi feito desses sonoros ambientes? Por onde andarão os seus atores?
Certo é que também não ouço sons modernos. Não escuto os sussurros dos tractores agrícolas, o «toc toc» dos motores de rega. Esvaíram-se águas, terras e máquinas?
Por onde andarão os sons das perdizes, dos corvos, dos mochos, das corujas, o chamar nocturno das raposas com cio? Onde foi que se recolheram esses sons?
Mantêm-se, sim, os sons eternos da natureza, os sons dos cerros, dos montes, os sons da chuva e do vento, o som da água que, mesmo sendo menos, ainda salta das fragas. Mantêm-se e revelam-se-nos as veredas, os lugares para além do que estamos perdendo lá onde irrompe um rural que já não é igual.
Mas, por mim, desejo ardentemente, que algum dia, surja novo mapeamento. Quero crer, claro, que poderemos voltar a falar de rural e de um agrícola (diferente) porque ainda não é hoje o fim do mundo.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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