«Memórias Paroquiais do Castelleyro», que já antes trouxe ao «Capeia Arraiana», são um texto riquíssimo em informação. António José Marques, actual presidente da Junta, fez bem que as plasmou no sítio da Junta de Freguesia da minha terra. Tenho passado bons momentos a penetrar mais fundo no que ali leio.

A vida é muito mais rica do que parece e quando nos parece que já nada havia para descobrir sobre o Casteleiro – não por não haver passados, mas por não haver quem fosse esgatanhar e descobrir documentos, vestígios, provas, indícios… –, quando julgávamos que nunca iríamos saber nada de concreto, eis que, mercê do esforço da actual Junta de Freguesia, nos «cai no prato» da nossa curiosidade este documento fabuloso, fascinante.
Trata-se, como já antes escrevi, de uma espécie de Relatório. São as respostas de um pároco às perguntas do Terreiro do Paço. Minto, por acaso nesse ano de 1758, o Palácio do Rei e os serviços do Marquês já não estavam no Terreiro do Paço mas sim, ao que julgo saber, em Belém, em consequência do terramoto de 1755. Consequências da terramoto no País, que são também um dos móbeis do Marquês: avaliar a situação global. Já agora, digo-lhe que o Padre Leal a isso responde de modo taxativo que o Casteleiro «não padeceu ruína alguma no terramoto de 1755».
O Cura Manuel Pires Leal responde ao inquérito no dia 25 de Abril de 1758. Premonição? – dá vontade de brincar…
O resultado são as «Memórias Paroquiais do Castelleyro», como haverá as do Sabugal ou de Aldeia Velha, já que o inquérito foi dirigido a todas as «paróquias». Registo que nesse tempo não havia freguesias, por um lado e, por outro, a divisão de base da organização territorial religiosa sempre foram as paróquias, como se sabe.
Quem puder ou gostar e tiver uns minutos, por favor não deixe de ler aqui o que o Padre Leal responde ao Marquês.
Colocada assim a introdução, resta-me recomendar que cada freguesia procure as suas Memórias dessa época, desejavelmente, com apoio da CM Sabugal / Pelouro da Cultura. Daí poderá resultar uma surpresa para muitas localidades…

Quatro grandes impressões
Quando li aquele documento no «Viver Casteleiro», fiquei vidrado. Por um lado, pela organização das respostas e pelo que me parece ser o rigor de alguém que, por um lado, conhece bem a realidade local e, por outro, parece levar a sério a importância das suas respostas quer para os objectivos do Reino quer para benefício eventual da localidade. Ao ler, tive mesmo a sensação de que ele, o Padre Leal, tinha a noção de que mais tarde estas respostas poderiam ser interessantes para quem como nós queira conhecer e perceber de onde vem, como se vivia antes no mesmo lugar e que riquezas já havia nessa terra.
Fiquei, a esse propósito, com quatro impressões centrais:
1ª – O Marquês: um homem sabido e bem rodeado, para ter engendrado esta estratégia de obrigar os párocos a debitarem o que sabiam para elaborar esta espécie de censos/1758.
2ª – O Pároco: homem certamente menos rude do que habitualmente nos vende a literatura do século XIX quando coloca nos enredos os padres dos séculos anteriores.
3ª – A economia: muito mais diversificada do que se pensaria – seguramente muito mais do que eu pensava.
4ª – O território: a sua organização diferenciada no que toca, por um lado, à gestão religiosa e, por outro, à gestão do Estado: justiça, poder local, administração.
Se quiser conhecer as perguntas do Marquês (as da sua terra devem ser as mesmas), pode ir aqui.

Algumas chamadas de atenção
Longe de mim querer trazer aqui grandes tiradas ou repetições do que o Padre Leal escreveu. Mas não deixo de salientar algumas notas que deduzo do que leio.
E começo pela que me parece mais importante: o Padre diz que esta terra «pertençe a El Rei». Como já antes escrevi, suponho que quer dizer que aqui não havia nenhum senhor «feudal» a dominar e que o Casteleiro dependia directamente da Coroa – o que era muito bom em termos de autonomia dos 525 residentes que ele refere. Por isso, escolhi para título: Casteleiro: terra livre? É que a regra em Portugal parece-me que não era essa.
Outra forte marca: o Casteleiro sempre viveu dividido entre a Beira Alta e a Beira Baixa – e está confluência das duas. O Padre Leal não deixa isso às escuras e é bem claro: «Está na província da Beira, Bispado da Guarda» (Beira Alta) e pertence à «Comarca de Castelo Branco» (Beira Baixa).
Um apontamentozinho: o Padre diz que do Casteleiro a Lisboa são 215 quilómetros nesse tempo – «43 léguas». Ou estava mal informado ou então a A23 anda às curvas por essa Beira e Estremadura. Pois se antes da A23, por Ponte de Sor, a distância era de 370 km e hoje será de 290, mais ou menos… que raio de cortes de caminho fariam naquele tempo para serem só 43 léguas?
Outro facto marcante: a água abundava no Casteleiro. O texto refere a ribeira e vários ribeiros, riachos, arroios e similares, lameiros, baixas de cultivo intenso etc., tudo agregado a várias indústrias artesanais ligadas à produção agrícola e até um tinte (tinturaria de roupa), equipamento este que se encontra no fim da fileira da fiação e da tecelagem – ver imagem que se publica. Uma surpresa para mim, que sempre falei do lugar chamado Tinte e nunca relacionei as coisas assim.
Ou seja: comparativamente, se calhar o Casteleiro dos meados do século XVIII era mais rico do que é hoje, pelo menos em termos de produção própria – isso, apesar dos modernos progressos da mecanização e fertilização.
Por fim: nunca desligo estas informações daquela outra que divulguei há tempos: a febre da corrida ao ouro no Casteleiro em 1723. Mistérios de antigamente…

Nota
Fica-me sempre aquele gosto amargo de continuar muito obscuro o passado mais longínquo do Casteleiro, por falta de investigação e de documentação que conheça.
Por exemplo: os castros e vestígios castrejos de há dois mil anos e mais o que significam de facto? Qual foi o papel do Casteleiro na rede de estradas romanas? Os senhores feudais que poder tiveram aqui? Quais deles?
Até nisto o Padre Leal me trama a curiosidade: à pergunta do Marquês sobre se a terra tem memórias passadas dignas de nota, o malandro responde apenas «Nada» – a esta pergunta como a mais 21 das 62…
Mas eu sinto outras necessidades de saber mais.
Os baldios, os morgadios, como se estruturaram por aqui? O que resta deles? O Morgadio de Santo Amaro resulta de quê? Os quase latifúndios do Dr. Guerra resultaram de quê?
E outras perguntas que por vezes me incomoda que não tenham (ainda) resposta…

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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