Noutro tempo, antes do povo se escapulir para franças e araganças, ao fairo de melhor sustento, as aldeias da nossa raia andavam pejadas de gente. A minha terra não faltava à regra e, malgrado as dificuldades, afianço-lhes que era um regalo cá viver.

Para além das canseiras da traita, que era dura e ocupava a mor parte do tempo, também havia ocasião para o espairecimento, que era quando a gente se tirava de cuidados e ia até à taberna deborcar um copo numa roda de amigos.
A ocupação que preferia nessas horas de repouso, especialmente no tempo inverniço, em que os caminhos estavam impraticáveis, era jogar às cartas na tasca da Cassilda. Agarrado ao baralho, atirava-me ao chincalhão, ao monte, ao truque ou ao sete e meio, ainda que preferencialmente procurasse jogar à bisca e à sueca, que me enchiam as medidas.
Abancava de pareceria com o Zé Taburdo, um enaipador de primeira água, mandávamos vir um pichel de verdasco, e esperávamos quem se dispusesse a fazer-nos frente. Na sueca o Zé Taburdo tinha tarimba e trocávamos uns sinalejos que só os dois conhecíamos. Estivessem as cartas de maré no baralhar, no partir e no dar, que levávamos tudo a eito.
Os que nos desafiavam na jogatina, era vê-los cair. Dávamos-lhes a torto e a direito, e chegávamos a passar tardes e noites na venda, sempre a zupar-lhes, bebendo em barda à custa dos perdedores e volvendo a casa já pela madruga, de andar cambaleante e a cantarolar o só-li-dó.
Pois de uma vez calhou-nos ir a jogo com os irmãos Tourais, dois valdevinos da pior espécie, que eram o terror em lutas e zaragatas, ainda que verdadeiros testos na arte de jogar à sueca.
Dávamos-lhes no toutiço, quando o mais velho, o Quim Toural, me disse de rompante:
– Tome tento Ti Tosca, que já lhe vi fazer arrenúncia.
Foi como se recebesse uma facada. Posso ter mau génio no perder, mas tenho-me por pessoa séria, e nunca fiz batota no enaipar. Fixei o meu reparar nos seus olhos de lobo esfaimado, e disse-lhe a bons modos:
– Descobre-me onde está a arrenúncia…
O Toural mandou as mãos às cartas que já tinham sido jogadas e passou-as a pente fino, a ver se descobria a vasa onde eu não tinha respeitado o naipe puxado. Passou-as e repassou-as, enquanto eu, com a febre a subir-me ao tutano, joguei as mãos ao cajado que tinha debaixo da mesa.
– Afinal enganei-me… P’los vistos vossemecê no’arrenunciou…
Já vinha tarde o tratante, que me ofendera o suficiente para ter de lhe dar uma zeribanda. Ergui-me num repente, levantei o cajado e desferi-lhe uma verdoada na cabeça, que lhe acertou na orelha esquerda. O homem botou as mãos ao toutiço e berrou que nem um marrano acabadinho de capar:
– Ai que me mataram! Ai que me mataram!
O irmão Vasco levantou-se e vinha crescer para mim, quando voltei a erguer o varapau e o avisei:
– Se avanças um passo arredulho-te à varada, alma do diabo!
O rapaz, temente de se ver sovado como o irmão, foi antes por ele, ajudando-o a levantar-se do chão.
– Cassilda! Bota um gorcho de vinho no farraixe deste rapaz, que eu to pagarei – disse à taberneira.
Mas os Tourais, picados nos seus brios, preferiram sair da tasca, sem mais uma palavra. Eles bem sabiam da minha têmpera, pois não era homem de lérias.
Arrumado o caso, voltou-se-me a Cassilda em grande pranto: que lhe afugentava os fregueses, que era velhaco e tarrabento, que me desejava má morte,…
Deixei-a a botar para fora o que lhe ia na alma, e, já com ela caluda, repostei-lhe:
– Antes havias de estar por mim, rapariga, que te retiro da venda os maus fregueses.
A alma de égua bem me olhou de través, mas resolvi desandar, fazendo-lhe a promessa de, face à afronta, ali não voltar a botar os pés.
Ficou-me de emenda, porque mandei ao dianho as vendas e as cartas.
Mesmo com os caminhos enlameados ou encaramelados pelo códão, preferi botar a talega ao lombo do macho e rumar à vida, retomando o meu afazer de candongueiro. Decididamente, eu não era homem de taberna.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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