João Valente vai prendar-nos com um excelente livro de poesias intitulado Cancioneiro da Raia Morena, a ser apresentado no próximo dia 17 de Fevereiro, pelas 18 horas, no Restaurante O Robalo, Sabugal.

A águia da bonita foto da capa do livro, da autoria do Kim Tomé, com a diáfana luminosidade das seis horas da manhã, num dia de primavera, nas alturas da Serra da Malcata, vagueia ao sabor da suave brisa, tal como o João Valente deambula de terra em terra, na sua escrita e imaginação, à cata da sua raia morena.
Apesar de exercer há alguns anos a adovacia em Leiria, o autor tem as suas raízes na raia, em terras de Riba Côa, concelho de Sabugal .
João Valente, ao longo deste livro, não se cansa de as percorrer e recordar, a ponto de eu desejar ter como cicerone não qualquer outro guia turístico para as visitar, mas o João Valente em pessoa. Porém, na falta deste jovem poeta, vou levar comigo o Cancioneiro da Raia Morena do nosso amigo João Valente, quando pretender deambular também pelas sendas da raia beirã. E digo nosso porque os poetas fazem parte de nós próprios. São como os entes queridos que vivem em nossa casa. Diria que são os nossos netos, a ternura, o olhar virgem e puro de uma criança. Manifestam os nossos sentimentos, reavivam-nos a memória, sacodem-nos para novos desafios. Os poetas não nos deixam tranquilos.
A emoção que já sentia ao ver os horizontes coloridos, cheios de matizes nas tardes de verão, é agora reforçada com a leitura do Cancioneiro da Raia Morena que farei antes de adormecer. Será um bálsamo tranquilo que me apaziguará, qual santo remédio para as minhas insónias de velho caminheiro nas terras beirãs. As suas poesias emprestam-me um olhar novo para quebrar a rotina que já não me deixa ver as pedras, os carvalhos, os castanheiros, os álamos, as montanhas, os rios e riachos, porque a paisagem que os meus olhos vêm está coberta por camadas de poeira acumulada ao longo dos anos, a observar sempre as mesmas coisas.
A incursão em terras de Riba-Côa do Cancioneiro da Raia Morena de João Valente não é uma conquista guerreira de um El-Rei de há 800 anos. É um rosário de lembranças e de apelos, de afectos e de emoções, de maravilhas e deslumbramentos, de alertas e desesperos, de diversões e avisos, de saudades e canções.
Com o João Valente também me sinto campestre e bucólico, a vaguear por Badamalos, Ruvina, Cerdeira ou Vilar Maior, a perguntar pelo Zé Romão, a Maria Monteiro e o Alexandra Badana. É com ele que quero ir para ver se ainda vejo os namoricos na fonte, ou o desabrochar dos primeiros amores, sob o sol ardente, debaixo dos salgueiros que bordam o rio Côa, com os juncos a servirem de cama, ou o sentir do sangue a fervilhar por uma alma gémia.
Já me disseste que não podias esticar o tempo entre os tribunais e o imperativo da inspiração poética. Deixa-te de ilusões! Visitar a raia beirã é em si mesmo uma autêntica poesia, um verdadeiro cancioneiro. Com o teu livro deste um tom mais colorido a esta raia que parecia ficar um pouco esbatida pelo gasto dos anos e o abandono das gentes. Reavivaste os ânimos com esta linda obra poética. Sendo assim, não me admira que com a tua nobre e cadenciada poesia deste cancioneiro, a raia tivesse ficado ainda mais bela e, evidentemente, morena.
Joaquim Tenreira Martins

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