Há umas semanas escrevi aqui que o Casteleiro sempre foi terra de migração e que Lisboa foi dos primeiros destinos para muita gente, muito antes da França. Muitos ainda hoje se mantêm com as suas proles na grande cidade. Hoje pergunto: sabem qual o processo de deslocação para muita gente que passou a trabalhar e a viver em Lisboa? Que caminho se seguia? Adivinham que ali havia cordelinhos bem mexidos?

Até 1960, exactamente 1960, muitos casteleirenses conseguiram um emprego em Lisboa. Coisa nada simples, nada fácil. Coisa nada frequente no País. Para se chegar a Lisboa e procurar emprego era um ror de tempo sem dinheiro nem casa. Isso não era possível. O ideal era, pois, ir para a capital já com as coisas arranjadinhas.
Eram tempos difíceis, como tenho mostrado.
Tempos em que as famílias estavam muito depauperadas.
Não havia dinheiro. Havia produtos da agricultura para a sobrevivência, mas não moeda. As famílias do Casteleiro, como as de todo o interior de todo o País, viviam a angústia de saber que, naquela linha de vida, o destino dos filhos era repetir o seu próprio destino de peito sempre apertado. Era preciso dar o salto. Isso, as famílias sabiam: era preciso interromper aquele círculo vicioso.

Destino: Câmara de Lisboa
Nos anos 50, sublinho a década outra vez, no Casteleiro, algumas famílias e seus filhos respiraram fundo até 1960.
Algumas conseguiram o milagre de garantir em Lisboa um emprego para os seus filhos (mais os rapazes, mas também algumas raparigas).
Os leitores do Vale da Senhora da Póvoa estão a ficar surpreendidos com este artigo, porque já viram a foto, que conhecem muito bem (busto de homenagem no Vale), e mais admirados vão ficar com o resto do texto, porque lhes vou dizer que o caminho de muitos jovens do Casteleiro para Lisboa passava pelo Vale de Lobo. E não me refiro só à estrada, até porque a maioria desses jovens não iam de carro (se fossem passariam pelo Vale): iam de comboio, ou seja: o caminho que seguiam era Casteleiro / Caria ou Estação de Belmonte / comboio / Lisboa.
Aquele era um tempo em que sem amigos poderosos as pessoas se encontravam condenadas a repetir vidas passadas, sem passar da cepa torta.
Ora foram muitas as centenas de beirões e não só os que migraram e, mais tarde, emigraram (para fora de fronteiras). O facto de hoje as nossas terras estarem a ficar desertas tem a ver com este factor. Lamentavelmente. Com realismo, temos de encarar o seguinte: se todos tivessem ficado na Beira, hoje as aldeias estavam cheias de gente. Não sei é se a qualidade de vida das famílias seria o que é (os que saíram, em geral, puderam assegurar aos familiares que ficaram melhores condições).

Pedir o favor
Para ir para Lisboa era preciso um favor. Pedir o favor de. E ficar eternamente grato e com razão, muitas vezes subserviente para a vida toda, de uma forma até um tanto feudal… Coisas de um tempo que vai e que vem…
No Casteleiro, o circuito era simples: a D. Maria do Céu (Barreiros Mendes Guerra, da Quinta, chamada «Vila Mimosa»), boa senhora, sensível, ouvia o pedido e quase sempre respondia à mãe angustiada que lá levara a cesta de ovos com o seu rebento de 18 ou 19 anos e dizia sempre:
Deixe estar que eu falo com o meu primo. Talvez se possa arranjar alguma coisita.
E, claro, o primo arranjava.
Termino com esta informação porque o resto adivinha-se: o destino de muitos desses jovens era a Câmara de Lisboa onde mandava em tudo o Dr. Jaime Lopes Dias, que se aposentou em 1960 (daí o meu sublinhado acima: até 1960) e que era primo da D. Maria do Céu.
Para quem não saiba, este dirigente autárquico era do Vale.
Na CML contavam-se às dezenas os funcionários do Vale e do Casteleiro.
Hoje ainda restam alguns – porque há fenómenos que se reproduzem.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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