Desfeito o Império e não consolidadas ainda as monarquias bárbaras, vivendo-se a decomposição do mundo romano e aproveitando-se as suas ruínas para edificar uma nova ordem, assistia-se ao espectáculo característico de todos os períodos de transição.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA Igreja que muitas vezes providencia mesmo para as coisas do mundo, desempenharia aqui papel decisivo.
Qual era a situação na Europa, pergunta-se in «A Igreja dos Tempos Bárbaros», no momento em que se ia finalizar o século V?
E responde-se na mesma obra (paginas 127 e seguintes).
Materialmente, é apenas um mosaico de estados bárbaros. Na Itália, reina Teodorico, chefe dos ostrogodos que, após quatro anos de lutas destronou Odoacro e ficou a ser senhor único, não só em toda a Península Itálica, mas também na Sicília, na Récia, na Noriça, na Dalmácia e numa grande parte da Panomia… Na África, na Sardenha e na Córsega compensam a sua inferioridade numérica com uma política de terror, os vândalos.
Na Gália e na Espanha, os visigodos de Eurico são senhores de todo o espaço que vai desde o Liger ao sul da Andaluzia. Depois de terem feito recuar os suevos para o ângulo noroeste da Espanha, a actual Galiza,•e os cantabros para as suas montanhas, pensam em restabelecer em seu proveito, a unidade da Gália. Mas os burgundios ocupam o sudoeste do País… e ao norte restabelece-se a unidade, em benefício dos francos, desejosos agora da sua independência, graças a um rei ousado, que governa desde 481 e ao qual a história dará o nome de Clodoveu…
O retalho afirmava-se ainda impressionante nas ilhas britânicas, naquilo que hoje chamamos os países nórdicos e sobretudo, para além do Reno.
Mas, se a autoridade política se mostrava assim dispersa, errante e instável, os povos beneficiaram, não obstante, duma certa tranquilidade e protecção, dispensadas pela Igreja e fundamentalmente pelos bispos.
Para além do prestígio propriamente espiritual, radicado na sua origem divina e na superioridade da sua missão, só ela possuía quadros susceptíveis de propiciarem aos novos soberanos apoio logístico e técnico para as grandes tarefas da administração pública.
Aliás o homem que dizia missa e sabia ler latim passou a ser o protótipo do alfabetizado. O nosso clérigo, o clerc em francês, o clerk em ingles, o klerk em flamengo e antigo alemão, o diaca em eslavo (e nós ainda hoje usamos o termo diácono) significavam na origem o que escreve ou que sabe escrever….
Para além do enorme ascendente advindo desta enorme superioridade cultural, a autoridade eclesiástica chegava a toda a parte, através da organização das dioceses e paróquias.
Curioso notar que este último termo originariamente queria dizer lugar de refúgio em país estrangeiro, o que pretende expressar quando se passa a usa-lo na nova acepção que ao fim e ao cabo este não é o nosso mundo.
De qualquer modo, diocese e paróquia passaram a denominar a circunscrição territorial governada a primeira por um bispo e as segundas por vigários ou representantes seus (que outro não é o sentido de vicariato).
O papel dos bispos revela-se primacial:
«Representante de Deus na sua circunscrição numa época em que a única autoridade moral é a religião, delegado do rei cuja chancelaria assinou o diploma que o acredita, chefe muitas vezes designado da comunidade popular (que nenhum bispo seja dado a uma comunidade sem a concordância dela, haviam decidido as decretais de Celestino I e o metropolita antes de nomear um novo bispo ou este antes de designar um novo vigário tinha de consultar os fiéis) o bispo dos tempos bárbaros reúne em si as três possíveis origens de autoridade: Deus, o monarca e o povo.
E o bispo não se cinge depois a uma função meramente religiosa.
Acima das demais autoridades civis ou militares da sua circunscrição compete-lhe vigiá-las, repreendê-las, modificar-lhe as decisões, servindo de autoridade de recurso.
Mais, até materiais como o abastecimento geral, a limpeza das ruas ou as grandes campanhas que nós hoje chamaríamos de higienização ficam a seu cargo.
Depois, há toda a obra social propriamente dita.
Ninguém, a não ser a cúria diocesana se encarrega dos hospitais, das prisões, das escolas…
É ela quem, por igual, trata da assistência a viúvas e órfãos, e não somente aos órfãos pobres, mas também aos ricos para os libertar da voracidade das tutorias civis.
Depois, é a única autoridade capaz de enfrentar os poderosos locais, sempre propensos a excessos e até de enfrentar a autoridade real.
A preponderância do bispo revela-se, em corolário, o grande facto social dos tempos bárbaros, pois foi o episcopado que naquela época prestou à sociedade os mais relevantes serviços.
A contribuição das dioceses e seus titulares na construção da Europa assume um relevo verdadeiramente exceptional.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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