Esta sociedade competitiva conduz-nos cada vez mais a um endurecimento nas relações sociais, ao egoísmo desenfreado, ao materialismo soez, à luta de todos contra todos e à sobrevivência dos mais aptos.

António EmidioQuem são os mais aptos? Os mais sérios, os mais honrados, os de uma postura ética vertical? Não! Infelizmente. Um homem que passou por Auschwitz, Primo Levy, judeu e escritor italiano, observou e analisou os comportamentos humanos nesse Inferno e, num livro que escreveu mostra-nos os que sobreviveram e os que perderam a vida. Diz ele que a maioria dos que sobreviveram não foram os melhores, os bons de coração e os que tinham valores e ideais, antes pelo contrário, sobreviveram os piores, os violentos, os egoístas, os colaboradores com as autoridades nazis do campo de concentração e os espiões. Ou seja, sobreviveram os mais aptos, ficamos então a saber que os mais aptos eram os piores.
E hoje? Nesta modernidade política, económica e social, que muitas vezes se assemelha a um campo de concentração, quem são os mais aptos? Dizia um multimilionário americano que a natureza recompensa os mais aptos e castiga os inúteis. Depois de ler isto, é caso para perguntar se é a natureza que decide os que hão-de morrer e sobreviver debaixo de um ataque, bombardeamento, dos USA e seus aliados, é a natureza que decide que mulheres, crianças e civis indefesos morram? Não! São os aptos. É a natureza que decide que na Coreia do Norte o povo tenha que viver debaixo de uma cruel ditadura hereditária? Não! São os aptos lá do sitio. É a natureza que decide quais os que ganharão milhões com as medidas de austeridade lançadas sobre alguns povos europeus, entre eles o povo português? Não! São os aptos. É a natureza que ordena que as grandes empresas devorem as pequenas levando-as à falência? Não! São os aptos. É a natureza que decide que as multinacionais, ADM, Cargil,e Bruge, que manejam o comércio agrícola mundial, potenciem a tragédia da fome, decidindo os que devem morrer e os que devem viver? Não! São os aptos, os directores e accionistas dessas empresas. É a natureza que decide que se destruam milhares de hectares de floresta, para com isso lucrarem as grandes empresas madeireiras? Não! São os aptos.
Querido leitor(a), os outros, os que não fazem parte dos aptos, são considerados os inúteis.

Termino com uma história de um apto, de alguém com uma aptidão impressionante: um senhor chamado David Harnet, secretário geral da fiscalidade britânica (fisco), reformou-se (debaixo de pressão), com um fundo de aposentação de 1.7 milhões de libras, com um salário anual exorbitante, e com um bónus no primeiro ano de reforma de 160.000 mil euros. Sabe porquê? Porque conseguiu que a Goldman Sachs e a Vodafone não pagassem milhões de libras de impostos que estavam obrigadas a pagar ao governo britânico. Calcula-se em 25.000 milhões de libras o perdão dos impostos. Sabe quem teve de pagar depois tudo isto? Os «inúteis», ou seja, os que trabalham dia a dia com grandes dificuldades e vêem os seus salários e reformas diminuírem, porque na Inglaterra também há austeridade, e de que maneira! Que afecta principalmente os que menos têm.
em>«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

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