Levantei-me cedo. Diz o Povo que deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Dirijo-me ao Metro do Rato. Há muito que não andava de Metropolitano. É a via mais rápida na Capital. Tive de perguntar os esquemas de deslocação, porque quando não se prática esquecemo-nos.

Em Alvalade tive de mudar de via. Olhei para os lados dos leõezinhos e verifiquem que andam muito domesticados e mansinhos para aquelas bandas. Nas várias estações do Metro destaco e admirei os painéis de azulejos alegóricos e invocativos das histórias de cada uma daquelas paragens. O azulejo é património da cidade de Lisboa. Admiramos a decoração de igrejas, capelas, miradouros, fachadas e interiores de palácios e até farmácias, restaurantes e padarias.
Á porta da ADSE – Associação Desportiva dos Servidores do Estado – já se encontrava uma equipa de futebol com muitos suplentes. Ao trocarmos olhares muitos, todos, nem para uma equipa de reservas nos escolhiam, muitos deles a precisar de cuidados de saúde e de massagista. Fui bem atendido e depressa dispensado.
Faço o retorno pela via azul e mais tarde passar para a amarela. São cores que gosto, mas para mim a cor por excelência é o verde, o verde da esperança. Amarela anda muita gente com a possibilidade de aumentar o número. Volto outra vez ao Rato. Á saída dois ceguinhos; um pede esmola o outro vende o Almanaque Borda de Água. Cá fora cruzo-me com um rabino, a sair da sinagoga escondida da Rua Alexandre Herculano. Figura típica, com ar fundamentalista, fato preto, grandes barbar, duas madeixas a cair da cabeça para os dois lados o rosto e não entendi vir de chapéu branco, estive tentado, mas não lhe perguntei a razão. Ainda estou à espera que nasça o seu Salvador. Na História de Portugal cometeram-se grandes erros. Um deles foi a expulsão dos Judeus. Foi um crime.
Subo a Rua das Amoreiras e ao meu lado a célebre Capela do Rato, muito falada nos finais do Estado Novo. Debaixo de uma arcada de prédios com muitos andares, um abrigo de um sem abrigo. Estava o abrigo com papelões e trapos velhos, mas o sem não o vi.
Subo e na frente um Hotel com janelas envidraçadas e muitas bandeiras. A encabeçar os cosmopolitas andares um grande letreiro com a palavra DOM PEDRO – LISBOA. Que Pedro será? Talvez o justiceiro que amava Inês de Castro na Quinta das Lágrimas em Coimbra? Será o Pedro, o Infante das Sete Partidas, erudito, diplomata do Reinado dos Avis, que morre às portas de Lisboa, em Alfarrobeira? Será o Pedro IV, aquele que deu a independência do Brasil e veio para Portugal e andou à guerra com seu irmão Miguel, delapidando a Coroa Portuguesa? Será o D. Pedro V, o Rei das Obras Públicas, da inauguração do Telégrafo e do Caminho de Ferro de Lisboa-Carregado? Afinal ninguém sabe. À sua frente uma das maiores catedrais do consumismo lisboeta com muitos trabalhadores a receber quinhentinhos mensais.
Na Fontes Pereira de Melo mais de uma centena de automóveis tem as boas festas no pára-brisas. Um rectângulo branco que vai ajudar a por em movimento muitas viaturas das forças de segurança a precisar de oficina para caçar os malfeitores, os pilha galinhas.
Também uma praga os incentivos publicitários, rectângulos amarelos a imitar a cor do metal precioso para as compras de oiro velho, gasto, a cobrir todas as ofertas. E eu a pensar que o cobrir era outra acção… ou acções.
No Parque Eduardo VII, junto a um luxuoso hotel muitos motoristas e carros de luxo. Dizem-me que são altas figuras da nação e eu a pensar que as altas figuras foram os nossos navegantes.
Visita a S. Vicente de Fora. Vem-me à memória a Irmandade de S. Vicente de Aldeia de Joanes, com mais de sete séculos de existência. Também este Santo Mártir de Saragoça, martirizado no início do século IV, pelo Imperador Romano Diocleciano, a última desencadeada aos cristãos é Padroeiro do Patriarcado de Lisboa. Passo por Santa Clara e percorro o espaço da Feira da Ladra. Mais acima o extinto e famigerado Tribunal Militar e ao lado o DSFOM- Direcção dos Serviços de Fortificações e Obras Militares, que nós lhe dávamos outros nomes…E mais abaixo as Oficinas Gerais de Fardamento, que talvez não tenham nem oficinas nem fardas.
Numa parede «estas ruas pertencem-nos. Fora com o emel.» Esta palavra deve ser sinistra e deve saber a fel. Já não há democracia?
Passo pelo Panteão Nacional. Só a Amália Rodrigues tem pessoas junto ao seu túmulo e muitas flores. Está ali a Fadista do Povo, aquela que cantava: «Povo que lavas no rio; que talhas com o teu machado; as tábuas de meu caixão;». Há anos uns pseudo- revolucionários diziam que esta Pátria só tinha fado, futebol e Fátima. Nos dias de hoje, só futebol para nos anestesiar das crises e austeridades. Esquecia-me de referir que o Fado foi considerado Património da Humanidade.
Entro no Patriarcado e sou encaminhado para uma sala de passagem, aguardando a entrevista de pessoa amiga. Passam uma quase centena de pessoas e só cinco dão as boas tardes. Achei estranho este comportamento numa casa daquelas. Será que derem saudações a uma visita pagam imposto religioso ou qualquer outra coima? Lembrei-me da Parábola do Bom Samaritano, das minhas aulas de civilidade que administravam em Gouveia, ir comprar um manual prático de boas maneiras comportamentais ou a necessidade de um curso de formação nesta matéria. Com estes comportamentos, admiram-se que apareçam todos os dias pessoas idosas abandonadas e muitas falecidas há muito tempo. Vivemos de costas voltadas uns para os outros. O Cardeal na Voz da Verdade na reportagem «que Igreja para Lisboa, apela para uma Igreja em comunhão centrada na caridade». Não passará essa Igreja por estes simples gestos? Quando não se fazem estes, fazem os outros? Eu não acredito.
Desço para a Igreja de Santo Estêvão e encontro um samaritano com quase oitenta anos. Nasceu e vive em Alfama. Fala-me com orgulho das suas gentes que um dia saíram para as Caravelas, para o mar salgado de que nos fala Fernando Pessoa. E canta-me: «No alto mar fomos nós / Sempre os primeiros / Com Alfama a palpitar / Em farda de marinheiros / Porque afinal, foi desta pobre vida / Que saiu Portugal / Que embarcou nas Caravelas».
Falou-me da Capela de Nossa Senhora dos Remédios, do Divino Espírito Santo e dos Navegadores e do milagre que ali aconteceu no poço interior, saindo de lá Nossa Senhora. Falou-me de um Bairro habitado com gente idosa e muita gente sozinha, casas em estado de degradação. No Verão as ruas e largos estão repletos de gente jovem, mas todos de passagem. Obrigado Senhor Manuel Esteves guardião de Alfama e colaborador e cristão activo em actividades religiosas.
Dirijo-me ao Museu do Fado, dando cumprimento a um velho desejo. Abrem-se histórias do Fado, os locais de origem na Lisboa oitocentista, a sua divulgação através de discos, teatro, cinema, rádio, os seus intérpretes e instrumentistas. Com três pisos, com novas tecnologias de multimédia interactiva dispomos de informação em qualidade e quantidade.
Os meus olhos fixaram-se na tela O FADO de José Malhoa e do MARINHEIRO do autor Constantino Fernandes. Também admirei a guitarra portuguesa. Com um sistema de audioguias permite ouvir umas dezenas de fados. Ao sair registei que o Fado é um poema que
se ouve e vê.
Percorro a pé toda a baixa pombalina, vejo agora uns novos aquecedores nas esplanadas a vomitarem chamas na vertical, encontro um companheiro da Guerra de África, que olha para o nosso passado militar e interroga-se como foi possível tudo o que a seguir aconteceu… Aquelas conversações em Lisboa com a Frelimo, que Mário Soares contou ontem na TV, é de rir, como foi possível.
Como é encantadora a luminosidade de Lisboa e como é lindo o pôr do sol…
António Alves FernandesAldeia de Joanes

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