Cantar as janeiras, hoje, só por reposição cultural. E isso é o que felizmente vem acontecendo. Mas em tempos a coisa era feita à séria. Recordo aqui essa saga.

No mês de Janeiro, era sagrado: tinha de haver sempre um grupo que se lançava na encenação de, por brincadeira, mas a sério porque em nome da tradição arreigada, ir de porta em porta cantar uns versos aos moradores de cada casa.
Não estou a imaginar hoje um grupo de adultos juntar-se e percorrer a aldeia a cantar as janeiras. Se isso se fizer por iniciativa lúdico-cultural do Centro de Animação Cultural, do Lar ou da Junta de Freguesia, já é um ganho. Mas instalar novamente a tradição seria um milagre.
Como eram as janeiras – o cantar as janeiras?
As pessoas juntavam-se, á noite, e iam de casa em casa. Rapazes e raparigas, sobretudo. Melhor: sobretudo as raparigas. Em frente das portas, ao fundo das escadas, um começava e os outros iam atrás:

Levante-se lá, senhora,
Desse banquinho de prata.
Venha nos dar as janeiras,
Que está um frio que mata.

Refrão:
Naquela relvinha
Que o vento geou,
A Mãe de Jesus
Tão pura ficou.

Havia mais estrofes. Como esta, por exemplo, agora com a grafia regional:

Levante-se lá, senhora,
Desse banco de cortiça.
Venha nos dar as janêras:
Ò morcela ò chòriça.

E repetiam o refrão.
Cantavam durante quatro ou cinco minutos.
Acabada a cantoria, lá vinha um copo, umas castanhas, às vezes uma morcela, uma chouriça.
Isso, tudo junto ao fim-de-semana, dava para um convívio da «troupe» de cantadores de janeiras.
Mas claro que não é só na nossa zona que se canta(va)m as janeiras. Por exemplo, a foto que fui buscar é de um grupo do Arez, em Nisa – uma terra que repôs a tradição e por isso registo aqui o meu apreço. Mas também nestas nossas terras da «antiquérrima» Lancia Oppidana encontro o mesmo apreço pelas janeiras de antigamente, como aqui, num sítio dedicado a Malcata, por exemplo.
Quanto ao Casteleiro, se tiver interesse, pode aceder a outros pormenores aqui, no Viver Casteleiro (ver também mais estrofes nos comentários a um desses «posts»).
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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