Não temos, no Interior Raiano, a grande cidade nem a cómoda diversidade das suas ofertas. Temos, sim, o primor da natureza.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»As encostas vestem-se de arvoredos ou ampolam-se de granitos cinzentos que a água chovediça lava, o vento seca e o sol escalda.
De uma qualquer rocha ou da mais vulgar húmida junqueira pode nascer e crescer um regato que escorregará em declives até descansar numa qualquer baixa. Regará hortas e pastos e ajudá-los-á a enverdecer. Alguns desses ribeiros engrossarão e transformar-se-ão em riachos seguindo em linhas de água azul, entre fragas. Alguns crescerão mais ainda e serão rios que, em percursos mais alongados, se lançarão sem medos nem sobressaltos, ultrapassando abismos e dormindo, apenas, em curtas partes do leito.
Por toda a parte há giestas e tojos que se ondulam ao vento, abrindo passagens ao pouco gado, sobrante dos antigos e compactos rebanhos.
As nuvens repassam-se de sol e luz, rendilhando os céus em cardumes brancos de pedaços de algodão que, quando escurecem, se desfazem em água.
O nosso horizonte é cercado por agudas escarpas que, no limite da vista, se afundam nos céus.
Temos ravinas profundas de onde se não enxerga nem mar nem terra, apenas se avistam pequenas partes do firmamento. Temos alturas vertiginosas que fazem crescer horizontes.
As Primaveras são floridas de mil flores com o calendário dos perfumes sublinhado nas maias do mês de Maio. A sobreposição amarelada das maias antecipa o cheiro azul e inebriante do rosmaninho São Joanino em cada mês de Junho.
Os Verões são quentes, carentes de humidades com dias torrados de sol e noites clareadas de lua.
Os Invernos são axadrezados de neve e gelo, com dias escuros e noites pretas.
Os Outonos são maioritariamente castanhos mas vestem-se, também, de outras cores igualmente belas, igualmente sóbrias.
Temos paisagens em tons plurais que nos explicam, em permanência, o verdadeiro significado do dito de Torga: «Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo».
Não temos, portanto, a grande cidade mas temos este aconchego em que os olhos se demoram, e os sentidos se reflectem. Temos a natureza que nos infringe amor pela terra que nos deu vida, terra que transportamos no âmago, que nos inspira contos e lendas e que nos garante enormes paixões. Fica-nos o coração pequenino diante de cenários de flores e ervas, de árvores e arbustos, de rochas e campos, de altos e baixos, de calores e frios e, secretamente, desejamos que tudo assim seja, que tudo assim se mantenha.
Aperta-se-nos o coração nas despedidas porque, muitos de nós, somos de viagens longas e de ausências demoradas apesar de nunca menosprezarmos o regresso.
Se partimos é como se deixássemos o campo em pousio, para virmos mais tarde, transbordando de saudade, amanhá-lo, como quem não queira perder o jeito à enxada.
E não conto, claro, nada de novo, nada que o estimado leitor não saiba ou conheça. Tenho apenas o prazer de contar.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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