Vivemos numa ditadura, a dos mercados financeiros, debaixo da qual está a ser posta em causa a Democracia, a Liberdade e o Estado Social, estendendo por toda a Europa desemprego e pobreza.

António EmidioEsta crise que atravessamos, ou grande parte dela, não foi causada por gastos excessivos dos Estados, mas sim por estes terem resgatado os bancos e os especuladores. Por exemplo, o resgate bancário da Irlanda custou a este País 30% do seu PIB, aumentando as dívidas para níveis elevadíssimos. O mesmo aconteceu a Portugal e a outros países da Europa, aliás, a dívida pública dos países da União Europeia era até bastante baixa, antes de todos estes resgates a bancos.
Ao injectarem dinheiro nos bancos, os Estados endividaram-se, mas banqueiros, especuladores e políticos depressa encontraram maneira de solucionar este problema do endividamento: austeridade, reduzir o gasto público, aumento de impostos, desemprego e privatizações, no entanto, estas medidas não trouxeram, nem podem trazer crescimento. Ao não trazer crescimento económico, reduzem a capacidade dos governos pagarem as suas crescentes dívidas. As agências de qualificação e especuladores põem em causa a capacidade de alguns países pagarem as suas dívidas, isso obriga a pagar juros elevadíssimos quando vão aos mercados financiarem-se, tornando as respectivas dívidas impagáveis.
Que consequências irá ter tudo isto? A UNICEF já advertiu que as crianças irão sofrer imenso, principalmente nos países mais débeis económica e politicamente, devido aos cortes salariais e à redução das prestações sociais, juntando a isto o desemprego dos pais. Há milhares e milhares de famílias nesta situação dentro da União Europeia. Aumenta o sacrifico daqueles que menos podem suportá-lo, em Portugal quem mais sofre e paga os efeitos desta crise são os mais pobres.
Enquanto a austeridade varre esta Europa, o número de ricos no continente aumentou em 2011 cerca de 8%, aproximando-se dos três milhões e meio de pessoas que juntas possuem 10 biliões de euros!
O que penso disto tudo? Com o tempo iremos assistir à desintegração da União Europeia, iremos voltar ás nossas antigas moedas e ao proteccionismo. Os governos já não aguentam mais estes desafios impostos pela Alemanha. Depois, a suspensão do pagamento das dívidas e as políticas de austeridade nos países do Sul, irão dar como resultado a quebra dos grandes bancos franceses e alemães. Se o projecto alemão de União Europeia lhe sair bem, que não é mais nem menos disciplinar e explorar a classe trabalhadora europeia, destruir o Estado Social, a Democracia, e criar uma grande zona de exportação, dentro de dez anos, ou menos, haverá muita mais desigualdade em países como Portugal, o estado de pobreza atingirá níveis idênticos aos anos 50 e 60 do século passado.

Sinceramente eu não compreendo esta irracionalidade de levantar economicamente um continente só através da iniciativa privada e com empregos precários, só pode levar ao fracasso total ou a revoluções. Claro! Este procedimento em si, é uma ideologia, o Neoliberalismo. É uma ideologia tão irracional que os USA e a Inglaterra, irão ser os que menos ganharão da reconstrução do Iraque, dos 186 biliões de dólares para infra-estruturas, os USA e a Inglaterra ficarão com uma percentagem de 5%, o resto irá para as empresas privadas. Os Estados e os exércitos endividam-se, os soldados morrem, depois as empresas privadas ficam com o «bolo» todo. Digo e repito as vezes que forem necessárias e enquanto não houver censura: o Neoliberalismo, a ideologia vigente nos Estados Unidos e na União Europeia, não tem outra meta que não seja só o lucro das empresas, por isso está condenado ao fracasso.
Sabe querido leitor(a) qual é a chave do sucesso presentemente? Ter negócios privados com dinheiros públicos.
Chamam-me radical, dizem que não compreendo o Mundo que está em mudança, a complexidade das novas sociedades, que tudo muda, os homens, as políticas e as economias, até a natureza! A esses e essas respondo-lhes com Galileo «Tudo é fácil de entender, o que há que saber é que mecanismos movem as coisas», os mecanismos sei eu quais são…
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

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