No final do século XIX, a Europa dominava o planeta. Era a fábrica do mundo, o banco do mundo, o cérebro do mundo. O europeu acreditava na força da sua cultura, da sua economia, da sua História.

Oscar Pistorius, atleta paraolímpico sul-africano Stephen Hawking. Apesar de sofrer de esclerose lateral amiotrófica desde os 21 anos tornou-se professor de Matemática na Universidade de Cambridge e um dos maiores cientistas mundiais Jesse Owens nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936

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Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaEm 1859, Charles Darwin, na sua obra «A Origem das Espécies», tinha exposto a teoria evolucionista, segundo a qual todos os seres vivos foram originados por outros anteriores, sobrevivendo apenas os mais aptos, os mais velozes, os mais fortes, os mais inteligentes. Aqueles que, devido a um «erro» de carácter genético (uma mutação), nascem desadaptados (deficientes, frágeis, incapazes de caçar ou de se defender), não têm qualquer hipótese de sobreviver. Portanto, não transmitem as suas deficiências ou insuficiências não existem leões coxos, coelhos desdentados ou águias cegas. A Natureza encarrega-se de os eliminar: é a selecção natural. Pode, no entanto, acontecer que uma mutação, por um feliz acaso, torne um animal mais apto: uma girafa que, circunstancialmente, nasce com o pescoço mais alto que as outras, numa época de escassez de vegetação, sobrevive melhor que as outras, de pescoço mais baixo, transmitindo a sua mutação aos descendentes.
Na óptica darwinista, o homem evoluiu pelo mesmo processo. Não descendemos dos actuais macacos (como, erradamente, alguns interpretaram as afirmações de Darwin, ridicularizando-o por isso), mas sim de antepassados comuns. Quando, há 4 ou 5 milhões de anos, a África austral, densamente povoada por florestas, sofreu profundas alterações geológicas e climáticas, muitas espécies animais extinguiram-se. Outras, por se encontrarem casualmente adaptadas às novas condições do meio, sobreviveram e multiplicaram-se. Foi o caso dos Homo habilis que, por conseguirem caminhar verticalmente, desenvolveram mãos hábeis e cérebros mais evoluídos. Puderam, assim, sobreviver no ambiente hostil da savana e originar, ao que se pensa, toda a humanidade.
O darwinismo surgiu numa época de crença absoluta nas potencialidades inesgotáveis da ciência. O positivista acreditava que o futuro e a felicidade do homem residiam no progresso científico. O homem, finalmente liberto das amarras da ignorância, da superstição e do irracionalismo, tornar-se-ia senhor do seu destino. Foi essa confiança ilimitada nas capacidades do homem para traçar o seu próprio caminho que o filósofo Nietzsche sintetizou na teoria do super-homem.
Friedrich Nietzsche (1844-1900) recusa as concepções morais e religiosas judaico-cristãs e defende um homem que, acima das paixões, impõe a si próprio deveres e obrigações, finalidades criadoras, desenvolvendo ao máximo aquilo que deverá ser o cerne da sua vida: a vontade de poder. Para Nietzsche, a vida apenas tem sentido se cada homem for livre de determinar o seu próprio destino. Só assim ele pode recusar a escravidão e escolher a condição de senhor, de super-homem.
Infelizmente, como muitas vezes acontece, tanto o darwinismo como o pensamento nietzscheano foram abusivamente interpretados. Não faltaram aqueles que, apropriando-se do conceito de sobrevivência dos mais aptos e da ideia nietzscheana de super-homem, imaginaram um mundo de dominadores e dominados, de senhores e escravos, de raças superiores e raças impuras e degeneradas. Melhor ou pior elaboradas, não tardaram a afirmar-se doutrinas justificativas de colonialismos e de imperialismos, de racismos de todo o tipo, de holocaustos e genocídios. E surgiram também práticas eugénicas que, «substituindo» ou «ajudando» a Natureza, procuravam «tornar mais eficaz» a selecção natural eliminando os velhos, os doentes terminais, os deficientes, os portadores de taras, os loucos, os ciganos, os negros, os judeus. Criando, em síntese, o «verdadeiro super-homem»: ariano, alto, louro, forte, imune à piedade e à dor alheia, nascido para dominar e ser servido.
Foi essa a hedionda utopia nazi, alicerçada num meticuloso e frio desprezo pelo ser humano. Um desprezo de tal modo eficiente que levou ao extermínio programado de muitos milhões de pessoas. Ao Homo germanicus tudo seria permitido, porque pertencia a uma raça de deuses.
E, no entanto, em 1936, nos Jogos Olímpicos de Berlim, um negro humilhou os «super-homens» arianos. O norte-americano Jesse Owens ganhou quatro medalhas de ouro de um só fôlego e Hitler abandonou apressadamente o estádio para não ter de o felicitar.
Hoje, ao vermos os modernos «super-homens» do desporto, de todas as raças e de todos os credos, não podemos deixar de dar razão a Nietzsche (mas não aos seus abusivos intérpretes) – o homem faz-se a si próprio. Através do estudo, do treino persistente, do sacrifício, do livre arbítrio. Em suma, da vontade de poder.
Quando assistimos à notável performance de um atleta, temos alguma dificuldade em imaginar quanto esforço está por trás – geralmente são «três por cento de inspiração e noventa e sete de transpiração», como alguém disse. Foi por isso que o pintor Degas preferiu retratar os ensaios de ballet em vez da exibição final. Atraíam-no os nove décimos do iceberg. Exactamente como naquela conhecida história de Picasso: um dia, quando o famoso pintor se encontrava num restaurante da moda, abeirou-se dele um admirador que pediu para Picasso fazer ali mesmo um desenho e lho vender. O pintor fez o desenho e, em seguida, pediu-lhe cinco mil francos. «Cinco mil francos por três minutos?!» – exclamou o comprador. «Não» – respondeu Picasso – «Cem francos pelos três minutos e o resto pelos oitenta anos que estão para trás.»
Um homem nunca se mostra inteiro. Vemos dele muito menos do que aquilo que ele é. Mesmo quando a apresentação pública não resulta brilhante, quando o pianista se engana, ou quando o atleta falha e não ganha medalhas, quando se retira cabisbaixo e de lágrimas nos olhos, mesmo então ele merece os nossos aplausos. Por todo o esforço oculto. Uma queda não tem importância, importante é sabermos levantar-nos sempre que caímos.
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

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