Não havia pai para o Casimiro, um fusco do catano, que fazia parte da guarnição do posto de Aldeia da Ponte, e que era, bem o posso afirmar, o terror dos contrabandistas do meu tempo.

O Casimiro era afinado como uma doninha. Encafuava-se nos cambais junto à raia, onde o cargueiro menos cuidava, e esperava pacientemente que um desgraçado lhe passasse rente. No momento oportuno saltava-lhe na galupa, agarrando-o firmemente e clamando com a sua voz de trovão:
– Larga a carga, jagodes.
De pouco valia tentar cavanir, que o fusco era arteiro e estava em vantagem, pronto para dar uma carreira, se caso fosse, tirando partido das suas longas gâmbias.
Em algo era porém menos ruim, aquela alma de cântaro: nunca aprisionava o homem que filava. Contentava-se com a tomada da carga, embora fosse useiro em recorrer ao costado do contrabandista para lhe levar a mercancia até perto do posto, dizendo-lhe depois que se pusesse ao fresco. O coitado aproveita e dava às de Vila Diogo, enquanto o Casimiro, para não deixar suspeitas, lhe berrava que o apanharia nem que fosse no outro mundo. De carga pejada, fosse fazenda, calçado, azeite, conhaque, pão ou simples galhetas, o sandeu apresentava-se perante o comandante, o cabo Peres, pronto para levantar o auto.
A mania de dar fuga aos contrabandistas depois de os fazer alombar com o carrego até às primeiras casas de Aldeia da Ponte, valeu-lhe de uma vez um contratempo. O Zé Covas, de Alfaiates, que era rapaz taludo, mas algo cagaçolas, foi uma noite vítima do Casimiro e alancou com a pesada carga de enxadas que trazia de Espanha até junto do posto. Mas quando o guarda lhe fez sinal para se escapulir, o Covas temeu que fosse ardil, vindo-lhe à mona a ideia de que receberia um tiro pelas costas, e fez-se desentendido.
– Vá azagal, larga o carrego e põe-te a léguas! – rosnou-lhe o Casimiro em voz baixa.
Moita. O candongueiro, imperturbável, não se mexia.
O Casimiro foi então mais directo:
– Ó palonço, arreia o fardo e desanda, que não te quero levar preso.
Ao Covas bem lhe apetecia livrar-se do apreensor, mas não lhe saía do tutano que aquilo era ariosca e que receberia fogachada, dizendo depois o guarda que abatera um preso em fuga.
Estavanado e já cansado de perder tempo, o Casimiro correu-o a pontapé, obrigando-o a seguir caminho.
Pois meus caros, lhes garanto que nunca me deixei filar por esse basbaque, e nem sequer me aconteceu aventar ao chão carga que ele apanhasse. Muitos lhe ouviram alanzoar que lhe faltava uma façanha na folha de serviço: deitar a manápula ao Tosca da Bismula. Só que eu, e não é para me gabar, era o mais astuto dos contrabandistas do meu tempo e, por mais esperas e aguardos que me fizesse, não houve forma de me colocar a mão em riba.
Sentindo-se incapaz de me filar junto à raia, estudou-me os percursos e uma noite esperou-me ao redor do caminho que seguia da Rebolosa para a Bismula, a pouca lonjura das últimas casas do povoado, portanto já bem longe da linha da raia e onde eu nunca esperaria sobressalto.
Caminhava à vontade, ciente de que a fazenda estava fora de perigo, quando, de repente, me saltou um vulto adiante, que me urrou:
– Larga a teleiga, Tosca. Estás filado.
Mesmo aturdido, consegui dar dois passos atrás, voltar-lhe as costas e correr de afogadilho de volta ao povoado, com o Casimiro a perseguir-me, quase lhe sentindo o bafo. Como ele tinha a perna longa não duvidei que me apanharia em breve, pelo que quando me aproximei da primeira casa atirei-me de um pulo ao cimo da parede do curral, que galguei para o outro lado. Já dentro do curral alapei-me debaixo de umas fachas de feno que estavam sobre o chedeiro do carro das vacas.
Do meu refúgio, quedo e de arfar sustido, pude ver o fusco, que saltou igualmente o muro e parou a mirar ao redor, a ver se descobria o meu paradeiro. A um ponto fixou os olhos no chão e disse em voz nítida:
– O lapuz já aqui largou carga.
E abaixou-se para apelazar o que lhe parecia ser uma boina basca.
Só que a mão deu com coisa mole, húmida e inconsistente, que lhe fez chegar às narinas um cheiro intenso.
– Conho, é uma bosta de vaca! – disse o Casimiro ao mesmo tempo que sacudia a mão borrada.
Estavanado, cirandou pelo curral, a ver se me topava. Vasculhou a moreia da lenha, assomou-se ao poleiro das pitas, debaixo do carro, dentro da dorna, até que o tremeluzir de uma luz, que se acendeu na casa o fez desistir e voltar a saltar o muro.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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