Chamava-se Francisco, toda a gente o conhecia por «Chico». Foi, enquanto teve saúde, sacristão na Igreja de São João, na cidade do Sabugal.

Conheci-te há muitos anos «Chico», entrei para a família dos teus patrões, a partir daí conheci o percurso da tua vida. Foste uma alma sensível, em ti nunca esteve a dureza de coração, a frialdade, o cinismo e a indiferença pela dor alheia, levaste uma vida marginal, quase idêntica à dos primeiros cristãos. Neste Mundo nunca tiveste uma recompensa, somente aquela, e bem valiosa que os teus patrões te deram, aceitaram-te como mais um membro da família, cuidaram de ti até à morte. Foste sacristão, serviste a Igreja, não serviste Deus, Ele serviu-te a ti. Quantas vezes, sem tu veres, Ele se inclinou diante de ti, não «Chico»! Não estou a fazer de ti um Deus superior! Mas só os cristãos como tu, com a vida que levaste, participam interiormente para a dignificação do credo religioso que abraçaram. Não sei onde estás a estas horas, mas sei que a tua alma e o teu espírito vagueiam nesse mar de felicidade que é a vida eterna. Atingiste agora a recompensa máxima.
Termino esta despedida pública que te faço com uma palavras de Monsenhor Óscar Romero, um mártir assassinado com um tiro no coração enquanto celebrava a Eucaristia, no dia 24 de Março de 1980, lembro-me bem da tua indignação perante este crime, as palavras dele foram estas: «Uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas, não agrada ao Senhor. Uma religião de muitas rezas, mas com hipocrisias no coração não é cristã. Uma Igreja que se instala só para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, mas que esquece as injustiças, não é a verdadeira Igreja».
Adeus até sempre, «Chico».
António Emídio

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