Contei aqui, há umas semanas, a lenda das três mouras encantadas que à noite estendem seus alvos lençóis no alto da Serra d’Opa. Entretanto, palavra puxa palavra, a investigação oral e escrita levou-me a outras «paragens». Hoje, quem vai ficar mais satisfeito são os amigos do Vale da Senhora da Póvoa, já que incluímos uma foto da encosta do lado da «antiquérrima» Lancia Oppidana – como adiante explico… A Serra, essa, concentra o protagonismo de numerosas histórias, lendas, contos, narrativas. Sempre com um misterioso ambiente de grandeza, riqueza, ouro. Para trás fica a história verdadeira da exploração de minério nas suas duas encostas, o que fez tal riqueza de muita gente que um dia um grupo de novos-ricos do Vale comprou o comboio ao… revisor de bilhetes… mas isso é uma história malandreca de brincar com a rapaziada do Vale.

É sabido que se contam em cada aldeia milhentas histórias sobre a Serra d’Opa. Naqueles anos 50, a rapaziada do Vale (assim chamávamos ao Vale de Lobo de então) tinha muito acesso ao alto da Serra porque daquele lado ia-se lá bem até de bicicleta: a encosta é muito menos íngreme e até havia terrenos cultivados mesmo lá no cucuruto… ao contrário do que acontecia do lado do Terreiro (das Bruxas) e do Casteleiro que, sendo muito a pique, tornava a escalada muito difícil para a rapaziada dessa banda. Mas muita gente lá ia (não eu: como já disse, tenho comigo essa lacuna: esta serra é a única dali a que nunca trepei…).
Bem no alto, haveria três castros (pequenas fortificações lusitanas). Um deles, designado como Sortelha Velha, pode ver-se na foto obtida via Américo Valente, citado adiante.

Mula de ouro
As lendas populares falam muto de ouro, moedas de ouro, potes de ouro.
Pois para a Serra d’ Opa também se arranjou no Casteleiro uma história que mete ouro.
Reza assim:
«No alto da Serra d’ Opa, há um haver: uma mula de ouro com selim, freio e tudo. E quem a há-de encontrar é rabo de ovelha ou ponta de relha».
Eu explico.
A mula tem os arreios todos: até selim e freio, portanto está completa e é muito valiosa.
E está ali mesmo à superfície. Reparem: quem a há-de encontrar é rabo de ovelha (ou seja: não é preciso arranhar muito o solo) ou ponta de relha (a relha é a parte do arado que rasga a terra – mas a relha não vai muito fundo, anda mais à superfície).
Portanto esta mula de ouro está mesmo ali à mão de semear…
É só ir buscá-la.

Mouras de tranças de ouro
Por seu turno, Lopes Dias, que era do Vale, conta a história das mouras encantadas que vivem lá no alto da Serra. Mas esta lenda não mete lençóis e sim tranças de ouro… Mais uma vez e sempre o ouro.
Ouro que, se bem se lembram, o Rei mandou procurar no Casteleiro em 1723: mandou explorar as terras para ver se de facto ali havia ouro ou não. Recordo que, mesmo não havendo tanto ouro assim, a verdade é que não falta lá, nas duas encostas da Serra, volfrâmio, estanho e quejandos minérios bem conhecidos, que na Segunda Guerra deram muito dinheiro a muitas famílias da zona.
Retomo Lopes Dias.
Destas mouras, conta ele que «no sitio da Penha, no cimo da Serra d’Opa (Vale de Lobo) lá vivem elas, lindas entre as mais lindas, escondidas entre enormes penedias, para uma só vez em cada ano — di-lo o povo — na noite de São João, saírem a estender preciosas meadas de ouro que guardam e que só entregarão a quem, naquela noite, à meia noite, apanhar a semente do feto real».
Mas ninguém se atreve.
«E por isso, lá entre penhascos, junto de enormes penedias, continuam encantadas, lindas, muito lindas mouras, de tranças de ouro, a guardar, pelos séculos dos séculos, grandes, enormes riquezas».
Consultar o Dr. Jaime Lopes Dias, aqui.

Grutas misteriosas e barulhos telúricos
Nem só de histórias vive o mito da Serra d’Opa: os visitantes falam também de minas, grutas profundas, buracos enormes pela rocha abaixo até às profundezas.
Num dos casos, contam-me até que lançavam uma pedra pelo buraco abaixo e que a mesma demorava muuuuito tempo a bater lá em baixo ou nem mesmo se ouvia a tocar no fundo. Sinal de que o buraco não tem fim.
Mais: ouve-se sempre lá no fundo um barulho parecido com o marulhar das ondas do mar. Até há quem diga que ali passa um braço de mar…

Oppidana > Opa
De que palavra poderá vir a designação da Serra (Opa)? Já li algures que de «lupa», loba, em latim. Aliás, havia muitos lobos na Serra. E o medo era enorme e quase religioso, naqueles tempos. Contam-se histórias do diabo sobre lobos e medo naquelas bandas – como esta, que é verdadeira e que pode ler aqui.
Opa poderia então vir de loba, em latim.
Mas esta origem que aí vem agrada-me muito mais.
Em 71 antes de Cristo poderá ter havido nas faldas da Serra d’Opa, mas do lado do Vale, uma cidade celta fortificada que lutou contra a ocupação romana. No local onde fica o Santuário da Senhora da Póvoa. Na década de 30 do século XX terão ali sido encontrados vestígios de muralha fortificada.
Do nome dessa cidade (Lancia Oppidana) terá derivado o nome da Serra: Oppidana > Opa.
Ver Américo Valente, aqui.
Mário Saa, aqui.
Duas notas minhas: lancienses eram os habitantes desta região do Côa (Cuda, donde: transcudanos); «oppidum» era qualquer das aldeias grandes do Império Romano. Muitas deram em grandes cidades romanas.

Compraram o comboio
A propósito da grande quantidade de volfrâmio que se recolheu nas duas encostas da Serra d’Opa na altura da II Guerra Mundial, quando eu era pequeno, contava-se que nesses tempos muita gente fez muito dinheiro. E, nalguns casos, esse dinheiro de bolso fez perder as estribeiras a muitos. Por exemplo: um grupo de rapazes do Vale de Lobo, na altura, foi a Lisboa onde nunca tinha ido. No regresso, vinham já quentes (de certeza, estou mesmo a ver) e eis que metem conversa com o revisor. Nem imaginavam qual o seu papel no comboio. Mas como tinha farda, pensaram que era pessoa de grandes poderes. Palavra puxa palavra e apalavraram a coisa: quando desceram em Belmonte, já tinham dado ao revisor todo o dinheiro que lhes sobrou da viagem. Era o sinal para a… compra do comboio – que fazia falta no Vale, diziam-lhe.
E fazia: ainda hoje faz, claro.
Uma historieta maldosa mas bem popular, bem ingénua e que não prejudica ninguém.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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