Era noutro tempo costume avistar galegos vagueando pelas terras da Beira, quais ciganos errantes à cata de jornal em pequenas tarefas da lavoura ou pedinchando de poiso em poiso, para não morrerem à míngua.

Embora fosse gente pobre e modesta, não se livravam da fama de calaceiros e ratoneiros, pois tinham a mão leve. Por via disso, eram pouco queridos nos povos por onde navegavam.
Por aqui e acolá iam encontrando uma alma caridosa, que lhes aceitava os préstimos para qualquer trabalho leve e lhes dava em paga uma malga de caldo ou uma côdea rija com um naco de carne rançosa. Em verdade não eram maus diachos, só um tanto rudes no trato e pouco amigos de se debruçarem sobre o arado ou se agarrarem ao mangual. Mas o certo é que quando a fome lhes apertava lançavam a manápula a eito, vindimando o que estivesse a descuido.
Dois desses ditos galegos passaram-me um dia ao redor do chão da Masseira, onde, à banda do carreiro, tenho uma antiga e ramalhosa nogueira. Era verão pleno e eu regava, pela hora do calor, uma leira de feijão de estaca. Lobriguei os dois badagoneiros, esfarrapados e de focinho peludo, a andar em passo lento e de bico calado, carregando cada qual uma volumosa trouxa. Encovilado na estacada, de lá os mirei chegando-se e dizendo um deles para o comparsa:
– Mira que rica sombra! E se aqui nos espojássemos à fresca?
Palavras não eram ditas e já ambos se tombavam de papo para o ar gozando a fesquidão.
O mesmo que falara, olhando para o alto da ramagem, voltou a dizer:
– Mira que guapos pêssegos ali estão em riba.
– Já arreparei, mas estão verdes.
Ao escutar do que palravam os vagabundos resolvi pular para o caminho, de coisa feita em os assustar.
– Ah, estafermos! Então falais em me papar os pêssegos?
Ambos se ergueram de um salto e recuaram temerosos.
– Não, Senhor!… Não, Senhor!… – balbuciou um.
– Só aqui nos tombámos por mor da canseira – explicou o outro com maior calma.
– Mas, então, não estais com fome, almas do diabo?
– Estamos sim, Senhor. Mas não pense vomecê que lhe queríamos filar a fruta…
– Ah, se eu não soubesse a vossa laia! Mas, ainda assim vos digo que não sou avaro ao ponto de negar alimento a gente esfaimada. Se quereis fruta podeis comê-la até que vos dê da bonda. Mas atenção… Não permito que emborqueis os caroços. Preciso deles para semear mais pessegueiros.
A estas palavras brilharam-lhes os olhos de alegria.
– Esteja vossemecê descansado. Os caroços não os queremos nós.
E treparam ambos à nogueira, onde, com sofreguidão, roeram as cascas das nozes.
– O raio dos pêssegos a mode que amarujam – disse um dos espanhóis.
– Cala-te e come, que mais amaruja a fome – volveu-lhe o outro.
Só pararam quando não lhes coube mais no odre. Desceram então da árvore e apanharam os caroços para uma cesta que lhes coloquei nas mãos. Acabado o serviço agradeceram o manjar e fizeram-se ao caminho, enquanto eu volvia a casa com meia cesta de nozes.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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