Há pouco, muito pouco, há escassos dias, assistimos aos minutos iniciais de um novo ano. Será (assim julgo) um ano importante que precisamos e desejamos vencer.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Ora, no ano findo, a crise, apesar de avisada, chegou e trouxe perplexidade, como se chegasse de surpresa, tal foi a sua magnitude. Houve quem não quisesse acreditar nela mas, como em tudo na vida, ignorar não é evitar e ela aí está, implantada e recheada de angústias.
Vencer esta crise é como vencer um campeonato do mundo de futebol, tão grande e tão geral é a sua amplitude assim como é enorme a ansiedade instalada.
É importante entrar no ano novo com o pé direito e julgo que é geral a vontade de ver com atenção os momentos iniciais do jogo. É como se, logo ali, tudo se decidisse.
Assim meditando, segui a linha do rio recordando passados recentes (apenas de aparência sólida) que se esboroaram num futuro repentino e diferente, quase oposto. Fraquíssima consistência mundana!
Tudo me parece, agora, conversa frágil. Tudo me lembra histórias de crianças e tudo é como se eu próprio tivesse falado com os autores ficcionistas.
Valha-nos o rio, pensei. O rio é diferente, é duradouro e persistente, ou melhor, é eterno.
Em tempo de superação de crise hei-de levar como exemplo a imagem do rio nos olhos, o seu correr límpido, o seu seguir perseverante, as suas sóbrias margens, as suas nuvens e o seu sol. Levarei também os seus sons nos ouvidos até que o ano novo se faça velho, até ao preciso momento de uma nova passagem de ano. E hei-de ir como quem diga um poema ao vento, ao vento que beija e ondula a linha de água. Esperarei, portanto.
A crise tem, claro, todo o aspecto de ser marcante. O que dela traduzimos não é tudo, mas é muito. Esperemos que em algum tempo ela toque corações. É que o mundo, cada vez mais, se divide em sacrificados e instalados. Grande divisão, esta, do mundo.
Para o ano, quereria que a minha pena aqui voltasse, fulgurante, no registo de histórias mais felizes e com alguma poesia porque, para além do resto, um ano duro será duro e triste se ficar isento de raios de poesia.
Peço, então, pouca coisa para este ano que ora começa. Que se possa, ao menos, trabalhar respeitando a ordem estabelecida por leis procedentes. Que nem tudo mude (como as regras a meio do jogo) ao sabor de específicas vontades. Peço ainda uma amenização dos sacrifícios e que estes (quando necessários) sejam lúcidos já que não podem ser irrelevantes e, já agora, que os sacrificados possam ganhar, uma vez por outra, algum jogo decisivo.
Fico-me, finalmente, pelo desejo do melhor ano possível para todos.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo