O órgão da igreja do Casteleiro ainda hoje «farranfona» as músicas sagradas. Desafina muito? Não importa. A verdade é que traz um pouco de cor aos dias. Com base na música e na ligação religiosa entre as pessoas e não só, houve música, teatro e animação no Casteleiro. O Centro, hoje sede do CACC, era palco dessas manifestações interessantes de cultura popular.

Estava-se lá por 1950 e tal. Não era só no âmbito da igreja que se faziam coisas da área cultural ou próximo. Havia teatro e chegou a haver uma espécie de rancho folclórico por ocasião da inauguração da luz eléctrica, com a presença do Governador Civil. Não se pode deixar de referir essa manifestação, mesmo que esporádica: ainda hoje as pessoas da época se lembrarão desse momento.
Mas havia também algumas representações de peças de teatro – fosse no âmbito do grupo da igreja ou noutro quadro.
O Neca e o Ti Nàciso (Narciso, claro) eram os ensaiadores, tanto quanto me lembro. O palco era montado ou no Centro ou no Pátio arrendado pelo Ti Fermino (sic) Ferreiro – mesmo ali ao pé do Terreiro, hoje Largo de São Francisco. Havia teatro – isso é que importa. Mesmo que ao ar livre. Mesmo que com palco improvisado. O Ti Nàciso era o ponto, que ia lembrando o texto aos actores. Por vezes ouvia-se mais a voz dele do que a dos actores…
Foram muitas as peças que se viram neste quadro.
Ficaram na história.

Havia como que duas aldeias
Se calhar, acontecia o mesmo em todas as terras. Mas lembro-me bem de ainda muito pequeno notar que ali havia gato: por um lado, o Padre e as mulheres; por outro, os homens. Nós, miúdos, éramos uma espécie de terra de ninguém: connosco tudo estava sempre bem.
Víamos os mais velhos a ensaiar as peças com o Ti Nàciso, apoiado pelo intelectual de serviço, o Neca, compincha de farras do actual Procurador-Geral (Pinto Monteiro). E víamos as nossas amigas da mesma idade ou pouco mais e as nossas mães a ensaiar coisas na igreja ou no salão do Centro.
No fim, para nós, aquilo batia tudo certo, porque íamos ver as peças todas – ora ao Pátio ora ao Centro. As «da igreja», digamos assim, eram representadas ao fim-de-semana e às vezes o sucesso era tanto que repetiam no domingo seguinte, segundo me recordam. Nuns casos, a temática era a velhice, noutros as noivas ou as «criadas de servir».
Os «teatros» (assim falávamos) eram verdadeiramente os do Neca e do Ti Nàciso, pois eram de autores bem conhecidos (deles, mas sobre os quais os ouvíamos falar).

O som daquele órgão domina-me até hoje
Não foram coisas que deixassem muitos frutos para muitos anos, sinceramente. São mais do género de manifestações culturais soltas. Mas lá que eram muito vividas e muito sentidas, disso não tenho dúvidas. Como a vida de Cristo, de que ainda hoje se recordam cenas… Lembro-me bem da zanga dos ensaiadores com os pretensos actores porque nunca sabiam o papel, nem mesmo já em plena representação «oficial». Como não conseguiam fixar as deixas, isso deixava o «ponto» muito irritado. De tal modo que ele desatava a berrar lá de dentro do seu buraco:
– Diz-lhe agora que tem de ir à luta pela rapariga se quer casar com ela…
Ou coisa do género…
Mas nem só de «construções profanas» vivia a cultura aldeã nessa época.
A organização religiosa, que abrangia sobretudo jovens raparigas e mulheres, também deu em algumas manifestações culturais a registar.
Por exemplo, e no estrito quadro dos ritos sagrados: impossível ver e ouvir a diferença entre as missas, terços etc. com e sem órgão. Bem ou mal tocado (o que é que isso importava?), o som do instrumento, parecido com o da foto, alegrava os ritos, dava outra cor à vivência religiosa. O coro da igreja, formado e dirigido sempre pelas mulheres mais influentes do arco religioso, fazia um sucesso. O som daquele órgão domina até hoje uma parte do meu imaginário.
Como já disse, havia peças de teatro ensaiadas pelo Padre e depois representadas no Centro, onde até havia um verdadeiro palco, já nessa altura.

Até um rancho chegou a haver
O mesmo grupo organizava passeios de carácter religioso mas também cívico, com as normas da época, evidentemente. Por exemplo: ir a Fátima (turismo religioso) – ou ir a Lisboa saudar Salazar, mas pisgarem-se quase todas as participantes para verem Lisboa e nem quase saberem onde estava o Ditador…
Mas não só.
Chegou a haver um rancho folclórico (mais ou menos isso). Coisa esporádica. Foi por ocasião da «inauguração» da luz eléctrica. Era assim que se falava no Casteleiro. Creio que em 1955. Como vinha o Governador Civil, coisa que naquela altura era algo digno de nota (…), não fizeram a coisa por menos e ensaiaram umas danças populares e umas cantigas para o ilustre.
Pena foi que não tivesse continuidade. Mas são embriões que ficam nos genes dos Povos. E não acredito que a actual dinâmica do Casteleiro não radique nessas diversificadas e múltiplas experiências de antanho…

Bailes e Santos Populares
Impossível falar aqui de todas as manifestações culturais populares (muito simples, muito ingénuas, algumas delas).
Mas não quero deixar fora de registo duas das que mais me lembram sempre.
Os bailes, com a concertina, no Terreiro e as brincadeiras e tradições do dia de São João. Não sei porquê, mas lá «não queriam nada» com os outros santos populares (Santo António e São Pedro – este até era muito celebrado no Sabugal, como os mais velhos se lembrarão bem). O São João é que era. E lá se montava o mastro para arder no Terreiro, tudo com muito rosmaninho, para animar e dar mais cor às celebrações. E bailes, claro. Dançar muito e bem, sempre.
Já agora: não sei se sabem mas o mastro como o da foto e as fogueiras de São João a arder são tradições que vêm do fundo dos tempos: simbolizavam a entrada no solstício de verão. Alta cultura popular, portanto.

…Tempos do caneco – garanto.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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