Será que as três moiras ainda lá continuam encantadas dentro daquele barroco da Serra d’ Opa? Será que ainda saem de lá todas as noites, à meia-noite em ponto? Será que o príncipe árabe que ficou de vir libertá-las já apareceu e as levou?

Tudo isso se passava na Serra d’Opa. Já conto, mas, primeiro, quero pôr os pontos nos «is» acerca do nome da serra.
Cada terra pronuncia a seu modo. Muitos de vocês chamam a este monte a Serra da Opa. Da. Outros chamam-lhe, na melhor das circunstâncias, Serra de Opa. De.
Muito de vocês impuseram isso na blogosfera. Pior: já levaram a coisa para documentação oficial. Sei, por exemplo, que há em Penamacor uma Associação de Produtores Florestais da Serra da Opa. Da. Estão a ver? É assim que as coisas se deterioram.
Pois bem: estou farto de ler e calar. Chegou a minha vez de pôr os pontos nos is.
Em toda a vida, o Povo do Casteleiro – que, a par dos Povos do Vale de Lobo (Vale da Senhora da Póvoa), do Terreiro (das Bruxas) e da Moita (Jardim) são as pessoas que mais de perto lidam com a mesma serra e sabem o seu nome e lhe chamam, tanto quanto sei, Serra d’Opa. Nada de «de» e muito menos de «da»: «d’Opa», lido como «Dopa». Ponto. Não cedo mais. Passo a falar (escrever) da Serra d’Opa e nada mais.
Acho que se no Casteleiro alguém disser «da Opa» é logo olhado de esguelha.

A lenda
Agora, a lenda. Cai bem, em época natalícia, trazer aqui um mito que nos encantava a meninice. Muita gente «sabe» que ali há moiros. Mas a história que se conta não é a mesma em todas as aldeias dos arredores. Cada terra tem a sua lenda. Neste caso, sei, por exemplo, que na Moita se fala de um moiro encantado Não tem tanta graça, temos de concordar. Pode ler isso aqui, de onde retirei a foto.

A lenda que me contavam era outra, com muita piada, mas, sobretudo, com muito «suspense» à mistura. Era contada em voz baixa aos miúdos de cinco, seis anos, com os olhos muito arregalados, todos a imaginar as cenas lá longe (era tão longe), bem lá no cimo da Serra d’Opa (aí uns 600 metros de altitude, imaginem…).
Então a história era assim:
– Há muitos anos, quando ainda havia moiros, antes de eles fugirem, ficaram lá em cima três moiras. Jovens e muito bonitas. As moiras vestiam sempre vestidos brancos. Eram três e não havia lá mais ninguém. E sabes onde é que elas estavam? Dentro de um barroco muito grande que lá há.
(Paragem minha, hoje: sempre quis ir lá ao barroco. Mas acreditam que nunca subi a esta serra? Fui à do barroco riscado «ver» a rocha onde estava gravada a frase «Bem haja quem me virou que já há tantos anos deste lado estou»; fui ao Cabeço Pelado; fui à Serra da Presa; fui várias vezes à Serra da Vila – de Sortelha. Mas nunca subi à das três moiras encantadas. Retomo a narrativa:)
– As três moiras nunca podiam sair de dia. Nem podiam ver a luz do Sol. Só podiam sair do barroco encantado de noite e só quando havia luar. E todas as noites à meia-noite elas saíam, vestidas de branco e vinham cá fora pôr a roupa a corar à luz da Lua. E a dançar. Elas todas as noites dançavam as danças dos moiros lá em cima, ao pé do barroco. E quem as queria ver tinha de ir de dia lá para cima e ficar lá escondido e depois, à meia-noite, espreitar. Mas nunca lá foi ninguém, porque as moiras eram encantadas e se alguém as visse desfaziam-se logo no ar. E ainda hoje estão à espera do moiro que fugiu da guerra que cá havia e que ficou de cá voltar para as vir buscar.

…Imaginam a pequenada a ouvir tal história de encantar?
Eu nunca me fartava de que ma repetissem noite após noite.
E bem me lembro das tantas vezes em que antes da meia-noite vinha à janela espreitar lá para cima a ver se via as moiras encantadas e a dançar ao luar.

Nota:
Quando, há cerca de um ano, fui desafiado a escrever neste sítio, o Casteleiro tinha aqui apenas 50 referências em quatro anos. Hoje tem 100. Um crescimento de 100% num ano. Valeu a pena, pelo menos em termos de estatística: a ideia era pôr o Casteleiro neste mapa. Dos conteúdos, cada um falará. Note que no mesmo período as referências às seguintes terras cresceram como indico: Sabugal – 10%; Soito – 18%; Sortelha – 14%; Aldeia da Ponte – 10%; Aldeia do Bispo – 3%. Isto, para referir apenas as que registei na altura neste mesmo sítio.
Boas Festas para todos.

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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